Recirculação jornalística no Twitter

Minha dissertação já está disponível para download na biblioteca online da UFRGS.

O título do trabalho é: “Recirculação jornalística no Twitter: filtro e comentário de notícias por interagentes como uma forma de potencialização da circulação”.

A ideia básica é a de que os interagentes, ao comentarem ou postarem links para notícias, estariam contribuindo para um maior alcance da circulação jornalística. No trabalho, chamei essa contribuição dos interagentes de “recirculação jornalística”.

No link abaixo é possível ler o resumo do trabalho e acessar o texto completo:
http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/28921

Jornalista pode falar qualquer coisa no Twitter?

Recentemente, dois jornalistas do Grupo Folha foram demitidos após trocarem impressões sobre uma cobertura em seus perfis pessoais no Twitter. Até que ponto se estende o alcance da organização? O jornalista segue sendo jornalista mesmo em um perfil pessoal em um site de rede social? Uma demissão nessas circunstâncias se justifica?

Os dois jornalistas usaram o Twitter para comentar sobre a cobertura jornalística da morte de José Alencar. Dentre outras coisas, mencionaram que a Folha.com demorou muito para publicar a notícia (o que de fato aconteceu), talvez receosos de errar de novo. Em certo ponto, chegaram a mencionar um caso recente, em que a Folha.com anunciou a morte do senador Romeu Tuma cerca de um mês antes de ele morrer. (Aliás, o caso Romeu Tuma foi tão emblemático que virou até tema de dissertação: a minha. Mais ainda: cheguei a entrevistar o então editor adjunto da Folha Poder, que parece ter sido um dos dois jornalistas demitidos recentemente.)

A ombudsman da Folha resolveu tocar no assunto na coluna deste domingo (mais detalhes aqui e aqui). A crítica se dirigia em especial ao fato de os jornalistas terem dito publicamente que o obituário de personalidades famosas costumam ficar prontos com antecedência, apenas esperando o momento certo de serem publicados. Ei, mas espera aí, algum leitor se sente ofendido ao ficar sabendo disso? (Algum leitor não sabia disso ainda????) Ou já não era de se esperar que já se tivesse dados prontos para quando alguma personalidade pública morresse? (Ou acaso alguém preferiria que uma nota de falecimento de uma grande personalidade pública levasse horas e horas para ser produzida?)

Poucos dias atrás, por exemplo, quando a atriz Elizabeth Taylor morreu, ficamos sabendo que seu obituário no The New York Times havia sido escrito por um jornalista que já morreu há 6 anos! E essa informação consta no próprio rodapé da nota.

Esse não é o primeiro caso de demissão de jornalista por algo que disse no Twitter, e provavelmente não vai ser o último. No ano passado, um jornalista da National Geographic foi demitido por criticar a revista Veja no Twitter. Pouco tempo depois, a Editora Abril elaborou um adendo a seu manual de condutas éticas, tratando de posturas éticas em redes sociais. Outras empresas também possuem recomendações sobre o tema, formais ou informais.

Toda essa discussão levanta a questão de que até ponto um jornalista vinculado a um veículo (ou, indo além, qualquer profissional de qualquer organização) tem liberdade para falar sobre o que quiser no Twitter – especialmente, para criticar o trabalho desempenhado pela própria empresa em que trabalha. Ainda que se trate de um perfil pessoal, uma pessoa pública como um jornalista é associada à imagem da empresa para a qual trabalha. Por outro lado, impedir que o indivíduo emita suas próprias opiniões pode caracterizar um cerceamento à liberdade de expressão.

Os veículos podem censurar seus funcionários? Os jornalistas podem falar o que quiser nas redes sociais? Não tenho uma opinião formada, mas talvez um meio termo baseado no bom senso possa ser um bom caminho…

Google Circles: mais uma rede social para o Google afundar?

Estava esperando o post entrar na WAVE Magazine antes de comentar por aqui, mas no fim se passaram tantos dias que vai parecer que estou falando de algo soooooo last year (quando, de fato, o rumor aconteceu tipo duas semanas atrás), mas, vamos em frente… algum tempo atrás (foi no começo de março, acredite) surgiu na internet o rumor de que o Google estaria por lançar uma nova rede social no SXSW. O rumor era tão bem elaborado que já tinha até nome: Google Circles.

Não entrando no mérito de se o Google é capaz de criar e manter uma nova rede social (oi, Buzz? oi, Jaiku? oi, Wave?) ou na questão de se realmente precisamos de uma rede social nova (será que a solução não seria investir nas que já temos?), o que me parece interessante na proposta do Google Circles (ao menos no contexto do rumor) é o fato de apostar em publicar determinados conteúdos para determinados círculos de amigos. Seria uma rede que não despreza o fato de que num site de rede social muitas vezes coexistem muitos contextos diferentes (amigos do trabalho, da escola, familiares, tudo no mesmo espaço; sua mãe e sua escola te seguem no Twitter), e que talvez a solução mais simples (tratar todos como iguais, desprezando as diferenças de contexto) não seja a mais adequada. E se a gente pudesse escolher para quem enviar cada atualização no Twitter? E, indo além, se o próprio sistema pudesse aprender para quem costumamos enviar certos tipos de mensagem e, a partir daí, pudesse enviar para as pessoas certas cada tipo de conteúdo? — se o Google Circles for mais ou menos nesse sentido, então aí sim teremos algo relativamente novo. Porque talvez o grande fracasso dos sistemas similares que já existem esteja no fato de ter que categorizar cada novo amigo na rede, ou selecionar os amigos que irão receber a mensagem a cada envio. Eu particularmente nunca tive paciência de criar grupos para todos os meus amigos no Orkut. Listas no Twitter? Sim, dá para escolher o que receber. Mas e para quem enviar? Vai tudo para todos sempre? Devemos criar várias listinhas em separado para poder compartilhar tudo o que queremos?

Talvez esse tal de Google Circles aí (que poderá ter outro nome, ou até mesmo que poderá nem existir) tenha um diferencial. Se as pessoas vão efetivamente usá-lo, bom, aí já são outros quinhentos. O Wave era uma ideia ótima, e tinha excelentes aplicações práticas (produção e edição colaborativa, por exemplo). Mas isso não foi suficiente para que ele não fosse descontinuado…

Assunto paralelo: fiquei brincando de trocar templates e parei nesse. Se alguém quiser sugerir algum template melhor, a caixa de comentários fica… putz, agora não sei se fica acima, abaixo ou ao lado do post. Bom, está aqui ao redor do post.

Enfim, mestre!

Tudo bem que o finalzinho do curso de mestrado não justifica o estado de abandono quase completo no qual deixei este blog, mas retorno a este espaço para contar que finalmente terminei o mestrado (Yay!) e já estou matriculada no doutorado. Em breve pretendo disponibilizar minha dissertação por aqui (a temática é circulação jornalística no Twitter), e também falar um pouco mais da minha produção recente (alguns dos artigos estão disponíveis ali ao lado, no item pesquisa; outros serão acrescentados em breve).

No período entre a entrega e a apresentação da dissertação, passei 35 dias em São Paulo participando do Curso Abril de Jornalismo. A experiência foi muito boa e despertou em mim o interesse em trabalhar em uma redação jornalística (bom, no caso, uma que não seja em formato wiki). Aos poucos pretendo compartilhar, ainda que tardiamente, algumas das impressões que tive por lá, sobre a vida na ‘cidade grande’. 🙂

Enquanto isso, nos Trending Topics…

Dia 26 de novembro, por volta das 14h

Dia 29 de novembro, por volta das 14h

Por um momento cheguei a achar que o pessoal do Rio não estava nem aí para os recentes acontecimentos que se desenvolvem por lá. Mas aparentemente o problema é que os TTs Rio de Janeiro permanecem congelados da mesma forma há dias (mais precisamente, desde 22 de novembro, Dia do Músico). Alguém sabe o motivo?

As mídias sociais não vão salvar o jornalismo

No começo desta semana, Mark S. Luckie publicou no 10,000 Words um post sobre os 5 mitos acerca do jornalismo digital. Não sei se seriam exatamente mitos, mas o fato é que ele colocou em discussão cinco questões que costuma ser tidas como dadas, quando na verdade o ideal seria assumir uma postura de ponderação diante delas. Ao invés de adotar uma postura apocalíptica ou utópica diante de questões como mídias sociais ou mineração de dados no jornalismo, o autor sugere ponderação.

Um dos mitos apontados é de que as mídias sociais seriam a solução para salvar o jornalismo. O post diz que apesar das inegáveis contribuições que as mídias sociais podem trazer ao jornalismo, seria exagero considerá-las como uma solução redemptora.

Nesse ponto, é preciso cautela. Acho que o papel das mídias sociais tem crescido cada vez mais nas redações – talvez como um reflexo do próprio uso mais intenso que vem sendo feito pelos indivíduos em geral – mas daí a dizer que as mídias sociais seriam a salvação para o jornalismo seria um salto gigantesco, ao ponto de se poder desconfiar se isso seria de fato um mito, ou se o oposto do mito poderia ser considerado algo dado (algo tipo, as mídias sociais não irão salvar o jornalismo; ou, ainda, não haverá uma única solução para salvar o jornalismo: talvez a solução esteja na combinação de múltiplas estratégias, e uma delas poderá, sim, envolver a utilização de mídias sociais).

O que é dito em sites como Twitter ou Facebook pode vir a complementar coberturas regulares dos jornais. Esses meios podem ser usados também como canais auxiliares para distribuição de conteúdo. O que é dito nessas redes pode ainda servir de ponto de partida para uma notícia (abordei um pouco dessa questão no artigo que apresentei no Intercom deste ano – link para o PDF). Enfim, as intersecções são múltiplas. De qualquer modo, minha tendência é ver as mídias sociais não como um substituto de outros meios jornalísticos e sim como um meio complementar para a circulação de informações. Eventualmente, o que é dito por lá também pode vir a abastecer novamente o jornalismo, servindo de fonte para uma nova notícia. Ou ainda, a própria circulação nas mídias digitais pode atingir proporções tais que se transforma novamente em uma notícia.

Direito de resposta no Twitter

Alguns dias antes das eleições, o TSE concedeu um direito de resposta inédito – não tanto pelo conteúdo (estava relacionado a questões eleitorais), mas sim pelo meio através do qual incidia. Rui Falcão, coordenador de comunicação da campanha da então candidata Dilma Rousseff teve de postar uma mensagem informando que o TSE considerou ofensiva as mensagens por ele divulgadas em 19 de outubro sobre a campanha de José Serra. Mais do que um direito de resposta concedido, o inédito da situação é que a decisão se referia a algo publicado no Twitter. E a resposta, também, deveria ser veiculada no Twitter.

O direito de resposta é um instituto jurídico previsto na legislação eleitoral. Incide em casos de violação a direitos emitidos por meios de comunicação diversos. As regras relativas ao direito de resposta na Internet foram estabelecidas pela Lei n. 12.034 de 2009. O artigo 57-D estabelece:

“É livre a manifestação do pensamento, vedado o anonimato durante a campanha eleitoral, por meio da rede mundial de computadores – internet, assegurado o direito de resposta, nos termos das alíneas a, b e c do inciso IV do § 3o do art. 58 e do 58-A, e por outros meios de comunicação interpessoal mediante mensagem eletrônica.”

Rui Falcão teria tuitado, em 19 de outubro, dois tuítes para seus então 2.113 seguidores, “Cuidado com os telefonemas da turma do Serra. No meio das ligações, pode ter gente capturando seu nome para usar criminosamente…”, e “Eles podem clonar seu número, pode ser ligação de dentro dos presídios, trote, ameaça de sequestro e assim por diante. Identifique quem liga!”. Essas mensagens levaram a equipe da campanha de José Serra a entrar com uma representação junto ao TSE perseguindo o direito de resposta.

A decisão proferida pelo relator Henrique Neves na Representação n. 361895 trazia duas sugestões. A primeira seria responder em dois tuítes, a serem veiculados no perfil de Rui Falcão. Os dois tuítes foram escritos pela equipe da campanha de José Serra. A segunda seria publicar essa resposta, por tempo determinado, no espaço destinado à biografia do petista no microblog Twitter. A decisão já foi cumprida por Falcão, que tuitou “Justiça eleitoral puniu Rui Falcão com este direito de resposta por ofensas à campanha de Jose Serra vinculadas em seu twitter…” seguido de “…cabe esclarecer que a comunicação feita pela campanha de Serra agiu com lisura, de forma íntegra, respeitando todo os eleitores!”.

Não entrando no mérito da questão, o interessante do caráter processual do caso é o ineditismo de se ter reconhecido um direito de resposta a algo veiculado no Twitter. Isso traz indícios do papel que o microblog exerceu nas eleições, e de seu potencial enquanto meio de comunicação legítimo – seja ele considerado como de caráter interpessoal, de nicho ou massivo. Tão legítimo e importante que se teve de reconhecer juridicamente o direito de resposta a algo veiculado através dele.

Livro: Eating Animals

Desde muito tempo evito certos alimentos em minha alimentação, muitas vezes sem uma causa profunda, simplesmente por uma questão de gosto. Foi só após a leitura de Eating Animals, de Jonathan Safran Foer, que passei a buscar outras motivações além do gosto para escolher o que comer.
O livro não chega exatamente a ser um manifesto em prol do vegetarianismo, mas passa perto disso. O autor (mais conhecido por Extremely Loud and Incredibly Close, um dos meus livros favoritos, e por Everything is Illuminated) decidiu escrever sua primeira obra de não ficção diante da expectativa do nascimento de seu primeiro filho, preocupado em fazer escolhas conscientes sobre o que dar de alimento para ele. O resultado é uma obra em tom informal que procura retratar como os animais são atualmente criados para serem posteriormente consumidos, intercalado com narrativas sobre a trajetória de vida do autor, e de como ele próprio se tornou vegetariano.
A ideia do autor não é que todo mundo passe a ser vegetariano após o livro – apenas que faça escolhas conscientes quanto ao que comer. Dentre os argumentos apresentados, está o fato de que a criação de animais para consumo é a atividade que mais contribui para o aquecimento global. Isso fora o fato de que parece contraprodutivo para diminuir a fome no mundo o fato de que precisamos dar comida para alimentar os animais, quando poderíamos dar comida diretamente para aqueles que têm fome.
A principal contraposição apresentada pelo livro parece ser entre fazendas que criam animais em condições “desumanas”, visando lucro e produtividade, e fazendas que procuram dar boas condições de vida aos animais, ainda que os retirem a vida de modo cruel, mas pelo menos garantindo que os bichinhos desfrutem de bons momentos antes de virarem ensopado ou bife. Obviamente, nos Estados Unidos predominam as fazendas do primeiro tipo. E a maioria das pessoas simplesmente não para para pensar de onde vem a carne que compramos já como carne no supermercado. E o pior: a gente não precisaria comer carne – é perfeitamente possível obter todos os nutrientes necessários a partir de outras fontes.
Ao final, o autor convida os leitores a se tornarem vegetarianos, ou o que ele chama de “onívoros seletivos” (aqueles que só comem carne proveniente de fazendas que tratam bem os animais). Ele reconhece que adotar um ou outro posicionamento pode ser bastante complicado, mas desencoraja qualquer tentativa de meio termo. Ou se pensa no bem estar dos animais, ou não se pensa. Ou se come apenas carne de procedência conhecida, ou não se come carne alguma. Como afirma o autor, “to those for whom it sounds like a hard decision (I would have counted myself in this group), the ultimate question is whether it is worth the inconvenience”.
O livro me ajudou a compreender melhor como funciona o sistema, e possibilitou saber, por exemplo, que peixes, camarões, frangos, perus e porcos criados para virarem carne para consumo humano são bem mais mal tratados em vida do que bois e vacas. Há granjas que criam os animais em condições artificiais, em reduzidos espaços físicos fechados e controlados, de modo a possibilitar que seu ciclo de vida seja mais rápido e eficiente, e que possam virar carne ainda mais cedo. Ótimo para o bolso do consumidor, terrível em uma perspectiva moral. Diante disso o autor questiona: “We are the ones of whom it will be fairly asked, What did you do when you learned the truth about eating animals?”.
Ainda não sei se conseguiria me comprometer a uma dieta apenas vegetariana. Por ora, continuo contribuindo para a crueldade contra os animais de fazenda. Mas não posso dizer que o livro não me fez pensar e repensar hábitos alimentares. Não consigo mais olhar para uma inocente almondega de frango (já não como carne vermelha há anos) e não pensar nos dilemas éticos levantados pelo livro.

Experiência de leitura no Kindle

Esta semana terminei de ler um livro pela primeira vez no Kindle. Antes que alguém pergunte, não, o post não é sobre o livro (talvez em um post futuro eu comente sobre ele), e sim sobre a própria experiência de usar um leitor digital para… leitura.
Minha experiência com o Kindle começa um pouco antes de adquirir esse primeiro livro pela Amazon Kindle Store. No primeiro dia de uso do novo brinquedinho resolvi navegar pela Kindle Store a partir do próprio aparelho, que vem equipado com um chip 3G. A experiência foi interrompida assim que comprei sem querer um livro, antes mesmo de ver o título da obra ou o preço. Fui clicar para abrir uma categoria de livros e sem querer cliquei mais de uma vez ao mesmo tempo no botão de navegação. Foi o suficiente para não só abrir a página de um livro qualquer como efetuar a compra do produto. Como o aparelho ofereceu a opção de cancelar a compra, cancelei antes ainda de saber que produto havia comprado. Em seguida recebi um e-mail, pelo computador, informando o livro que havia comprado e o preço – era um livro com dicas para usar o Kindle, cujo custo era U$2.99. Se soubesse antes do valor irrisório, talvez tivesse mantido o livro no aparelho. Mas como me assustei, e na confirmação da compra não havia menção nem ao nome do livro nem ao preço pago por ele, procurei cancelar o mais rápido possível. Na fatura seguinte do meu cartão de crédito veio a cobrança e o estorno do valor desse livro. No fim a brincadeira me saiu R$0,07 referentes a taxa de conversão cobrada pelo banco.
Superado o trauma inicial da compra com um clique, nas primeiras semanas de uso resolvi utilizar o aparelho para leitura de arquivos em PDF, em especial para as leituras do mestrado. Para isso, baixei o programa Calibre para converter os PDFs em arquivos .mobi. Embora ele faça um bom trabalho, permitindo, por exemplo, que posteriormente se possa aumentar ou diminuir a letra do texto no Kindle, não consegui me livrar de cabeçalhos e rodapés dos artigos, e tive que aprender a abstrair a presença desses elementos na hora de ler algum texto no Kindle. Outro problema que também não consegui contornar é como fazer para ler PDFs de textos em duas colunas no Kindle. Dá para enviar o próprio PDF para o Kindle, mas como não tem como mudar o tamanho da letra, fica tudo muito pequenininho.
Foi só na semana passada que comprei um livro pela primeira vez na Amazon Kindle Store – The Shallows, de Nicholas Carr. O livro tem o preço padrão cobrado por um lançamento para Kindle na Amazon: U$11.99. Após a compra, recebi via 3G no aparelho em poucos minutos.
O aspecto mais interessante da leitura no Kindle é que é possível sublinhar os trechos mais interessantes, tal qual na leitura do papel. Também é possível fazer “anotações nas margens” (na verdade, as anotações se tornam espécies de notas de rodapé no texto), digitando num tecladinho simpático em miniatura que vem no próprio Kindle. O aparelho vem com um dicionário de inglês acoplado, então é só parar o cursor diante de uma palavra desconhecida e ele já mostra na tela o significado. (O recurso foi bem útil na leitura do livro. Confesso que quando comecei a ler eu não sabia nem ao menos o significado da palavra “shallows” no título do livro.)
Pontos negativos incluem, por exemplo, a extrema facilidade com que deletei sem querer esse mesmo livro agora há pouco quando fui tentar abri-lo para rever as anotações. Ao clicar com o botão de navegação sem querer coloquei para baixo também e *puf*, o livro sumiu, evaporou, desapareceu. Pelo menos consegui recuperar as anotações no arquivo “My Clippings”, que reúne todas as anotações feitas em todos os livros no Kindle.

Tecladinho simpático no centro, e botão de navegação feio bobo e peludo à direita
Apesar de ter gostado da experiência de leitura no Kindle – não cansa a vista, como em monitores de computador – odiei o botão de navegação do Kindle. Tal qual muitos celulares, ele possui um botão de navegação que pode ser movido para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita, e também pode ser clicado no centro. Em 99% das vezes que tentei clicar nesse botão, meu clique foi acompanhado de um leve direcionamento para uma das posições que o botão se move, o que pode significar desde simplesmente não funcionar o clique, até apagar o livro inteiro ao invés abri-lo. Por essas e outras também não gosto de usar touchpads clicáveis em notebooks…

Assunto relacionado: O advogado Marcel Leonardi conseguiu sentença favorável na Justiça brasileira para comprar o Kindle sem impostos. Interessados em tentar seguir o mesmo caminho podem acompanhar a saga do advogado neste post.

Assunto paralelo: Alguém tem alguma ideia de como se livrar do monstro do malware no blog?

O Twitter é uma rede social?

Com o provocante título “What is Twitter, a Social Network or a News Media?“, um grupo de pesquisadores coreanos apresentou um interessante trabalho sobre o Twitter no WWW2010 em abril deste ano nos EUA. A partir da análise de uma grande quantidade de dados, os autores chegaram à conclusão de que o Twitter seria menos uma rede social e mais um espaço para difusão de informações – algo próximo à uma mídia noticiosa (news media).
Para analisar o potencial do Twitter como um novo meio para compartilhamento de informações, os autores do estudo partiram de uma grande quantidade de dados: 41,7 milhões de perfis, 1,47 bilhões de relações sociais/conexões entre esses perfis, 4.262 trending topics e 106 milhões de tweets. Com isso, eles dizem ter feito o primeiro estudo quantitativo de toda a twittosfera e da difusão de informação que ocorre através dela.
Nas conexões entre os atores, eles encontraram padrões que fogem às características tradicionais das redes sociais, como uma distribuição de número de seguidores que não segue uma lei de potência, um número de graus de separação menor que em outras redes (média de 4,12 graus de separação), e uma baixa reciprocidade nas conexões (segundo os autores, apenas cerca de 22,1% dos contatos seriam recíprocos: seguir alguém e ser seguido de volta). Outro dado interessante é o fato de que 67,6% dos usuários não são seguidos por nenhum de seus seguidos – uma hipótese levantada pelo trabalho é que esses usuários usem o Twitter apenas como fonte de informação.
Como em outro estudo já comentado por aqui, eles também analisaram a influência dos perfis do Twitter, a partir do número de seguidores, do PageRank, e do número de retweets. Com isso, constataram que os usuários mais retwittados não são necessariamente os mesmos que são bastante seguidos.
Outros aspectos analisados foram os assuntos mais freqüentes nos trending topics (e o comportamento desses tópicos ao longo do tempo) e o alcance de um retweet. Com relação ao alcance do retweet, eles observaram que, independente do número de seguidores que possui o usuário que fez o tweet original, uma vez retwittado, esse conteúdo tem o potencial de atingir uma grande quantidade de indivíduos. Outra curiosidade diz respeito ao fato de que metade dos retweets costuma ocorrer logo na primeira hora após a mensagem original ter sido postada.

Alguns comentários – o estudo quantitativo traz vários dados para se pensar o Twitter. O aspecto-chave do trabalho parece ser discutir a natureza do Twitter – seria uma rede social ou um espaço para difusão de informações? Por mais que a ferramenta pareça ser mais apropriada para o compartilhamento de informações, acho que não dá para desprezar também seu caráter de site de rede social. Há perfis, possibilidade de interação entre os perfis, e conexões são estabelecidas entre os atores. Ainda que possa predominar um ou outro uso, o Twitter pode ser visto como um híbrido entre uma ferramenta de informação e uma ferramenta de interação. Ou alguém consegue negar que exista na ferramenta um ou outro tipo de uso?
No Brasil não é muito diferente. No estudo que fiz com a Raquel Recuero no ano passado, vimos que a apropriação do Twitter para informação costuma ser mais frequente que para conversação. Mas nem por isso deixamos de observar aspectos de rede social na ferramenta – mesmo as redes usadas para acesso a informação seriam também “redes que importam”.
Mesmo que se interaja efetivamente com poucos dos seguidores do Twitter, isso talvez não baste para caracterizar o Twitter como uma outra coisa que não uma rede social. Ou acaso alguém que tenha 1.000 amigos no Orkut efetivamente conhece e interage com cada um desses 1.000 amigos?

(Via Nieman Journalism Lab – notem a sutileza de que fiquei sabendo do estudo por um blog, e não através do próprio Twitter :P)