Há vários blogs por aí que falam sobre blogs – de dicas sobre como ganhar dinheiro (com blogs) a sugestões de como começar do zero (um novo blog), passando por discussões que tratam a blogosfera como um grupo socialmente autônomo (apesar da diversidade de blogs, apesar da heterogeneidade de blogueiros) e posts que comentam a realização de eventos (sobre blogs). É tanta metalinguagem que não resta dúvidas de que, ao longo de seus mais de 10 anos de história, os blogs já se consolidaram como um meio de comunicação democrático (há controvérsias) e autônomo em relação ao jornalismo. Mas e quanto aos blogueiros – blogar já virou uma profissão?
O Bruno Cardoso, do Navalha Infame, passou-me um meme intitulado “Blogar… uma profissão?”. A idéia é discutir se o uso intensificado e diversificado dos blogs estaria dando origem a uma profissão autônoma, exercida por blogueiros, e em contraposição ao trabalho exercido pelos jornalistas. Embora eu acredite que seja difícil dizer algo novo sobre o assunto, sem cair na inevitável reverberação de argumentos, segue abaixo a tentativa de escrever alguma coisa sobre o tema.
Antes de tudo, contrapor blogueiros e jornalistas simplesmente não faz sentido. Os dois não exercem a mesma função. O jornalista (ideal) possui uma ética que lhe é própria da profissão, aprende técnicas de reportagem, faz um trabalho investigativo sério e ouve os dois lados da história. O resultado de tanta preparação e cuidado faz com que jornalistas – e jornais – trabalhem para construir credibilidade. Por conta disso, apenas por um fato ter saído em um veículo como Folha de S.Paulo faz com que ele adquira status de verdade. Já os blogs não possuem uma regulamentação – a grande graça da coisa é a liberdade de se poder escrever, do jeito que se quiser, sem se submeter a constrangimentos organizacionais (como no caso de jornalistas que trabalham para veículos de imprensa) ou a pautas impostas verticalmente (blogueiros são auto-pautados). Assim, não se trabalha em termos de busca por credibilidade, mas de busca por reputação. E a reputação é construída pela quantidade e qualidade de seguidores que se consegue atingir, pela capacidade de ser reconhecido pelos pares como “blogueiro”. E, sim, o blogueiro precisa se preocupar com o conteúdo, citar as suas ‘fontes’ (que, veja só, quase sempre são outros blogs), e usar, mesmo que intuitivamente, a noção de “valores-notícia” do jornalismo (sob pena de escrever para ninguém ler). Nessa busca por reputação, o blogueiro pode até começar a ganhar dinheiro (embora a grande maioria dos que buscam lucros prefira abusar da capacidade intelectual de seus leitores – dentro da idéia de que uma maior quantidade de leitores irá render mais dinheiro, ainda que esses leitores precisem ser enganados para que cheguem até o blog), o que nos leva ao segundo ponto.
A possibilidade de se ganhar dinheiro com blogs não significa que blogar tenha se tornado uma profissão. Posso ter como hobby pintar quadros, fazer obras realmente muito boas, e até ganhar dinheiro com isso. Também posso ter o jornalismo como profissão, ser formado, com diploma e tudo, e escrever matérias de graça para o informativo de um projeto social ou de uma ONG. Não dá para ignorar que tem gente vivendo de blogs, mas isso, por si só, não justificaria alçar blogar à categoria de “profissão” – o que nos leva ao terceiro ponto: a regulamentação das profissões.
Você consegue imaginar algo como…
Blogueiro
Norma Regulamentadora:
Lei no 210.746 de 27 de fevereiro de 2017 – Dispõe sobre o desmembramento dos Sindicatos de jornalistas e blogueiros.
Decreto no 123.947 de 31/08 de 2017 – Dispõe sobre a profissão de blogueiro e regula o seu exercício.
… na lista de profissões regulamentadas, ali, logo após Biomédico? Consegue imaginar uma entidade de classe em defesa dos direitos dos blogueiros, com estatuto, regras para o exercício da profissão e até um curso superior para formar profissionais na área (algo como “Comunicação Social – Habilitação em Blogs”)? Como bem colocou Alexandre Inagaki, a graça do blog é a liberdade, tanto editorial como de forma. Dá para ter blogs sobre qualquer assunto. Os posts podem ter qualquer formato. Qualquer um pode ter um blog. Tentar acabar com essa liberdade propiciada pela ferramenta seria insano (até porque os demais blogueiros não deixariam).
Acho que não cabe aqui discorrer sobre o que é uma profissão, e por que blogar não é uma profissão – o Bruno Cardoso já fez isso, inclusive de forma divertidamente ilustrada. Em seu post, o Bruno traz a definição do dicionário Aurélio para profissão e discute por que os blogueiros não se enquadram na situação. Ele vê os blogs como ferramentas de discussão (em essência, a grande graça da coisa estaria nos comentários, e não nos lucros), e não como meio de comunicação, o que nos leva a um quarto ponto: blogs são versáteis – e, como tal, blogs podem ser muitas coisas ao mesmo tempo.
Enquanto ferramentas de discussão, os blogs são espaços de reflexão e de conversação (embora haja notórias dificuldades em se construir as conversações), distribuídos em uma complexa estrutura de rede, baseada em links, comentários, e trackbacks. Voltando à comparação (equivocada) ao Jornalismo, equiparar blogueiros e jornalistas é o mesmo que esperar que um jornalista da Folha cite uma matéria do Estadão, ou convoque outros veículos a abordar um mesmo tema, como num meme ou numa blogagem coletiva. Blogs e jornais são coisas completamente diferentes, embora por vezes ambos se utilizem de um mesmo suporte (a Internet), tratem dos mesmos temas – e, cada vez mais, jornalistas passem a “blogar” em nome de suas organizações (leve ressalva: a maior parte desses ‘blogs’ não passa de uma versão digitalizada das colunas dos impressos – porque ter um blog é muito mais do que escrever em ordem cronológica inversa e abrir para comentários).
Bom, resumo da ópera: blogar não é profissão (talvez uma atividade, uma ocupação) – embora no futuro possa vir a ser (nunca se sabe; imagino como não devia ser a situação do exercício do jornalismo até ser oficialmente regulamentado) – e a grande graça da coisa é poder falar e ser ouvido, é poder postar e receber comentários, é poder escrever sobre o que se gosta, do jeito que se quiser, e quando bem entender (embora a perspectiva de ter 4 leitores às vezes assuste um pouco).
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O caminho do meme
Tudo começou em um post da Ana Brambilla. Ou melhor, o buraco é mais embaixo: tudo começou com as “hostilidades” cometidas por blogueiros contra a imprensa no Campus Party – e que na verdade os jornalistas pareciam estar levando numa boa, mas isso não vem ao caso – e no debate que ocorreu por lá entre blogueiros e jornalistas. Ou melhor, o buraco é mais embaixo ainda: a discussão já tem rolado há muito tempo pela blogosfera afora.
O Thalles Waichert, do iBlog, resolveu continuar a discussão iniciada pela Ana Brambilla sobre se blogar seria uma profissão, e transformou o assunto no meme “Blogar… uma profissão?”, convidando outros blogueiros a manifestarem a sua opinião sobre o caso. Aí o Thalles passou o meme para, dentre outras pessoas, o Yuri Almeida, que, por sua vez, passou para o Bruno Cardoso, e através dele o meme chegou até aqui. E como nessas situações nunca sei para quem repassar um meme, fica o convite para quem quiser se manifestar sobre o assunto. Convoco, em especial, o Gilberto, que recentemente fez um post sobre como os jornalistas poderiam aproveitar o potencial dos blogs para se tornarem, eles próprios, verdadeiros veículos de comunicação social.
All posts by Gabriela Zago
Futuro 2.0: um mundo sem advogados?
Richard Susskind, professor e consultor britânico na área de tecnologia da informação, autor do livro “The future of Law“, lançou a hipótese polêmica de que, em um prazo de 100 anos, a profissão de advogado já não existirá mais. A idéia é a de que a mercantilização da função, aliada à popularização das tecnologias de informação e aprimoramento das redes colaborativas online, estariam fazendo com que a profissão caminhe rumo à obsolescência e à desnecessidade.
Muitos advogados têm criticado a previsão de Susskind de que a advocacia está com seus dias contados. Entretanto, como aponta Suzana Cohen, no Bricolagem High Tech, “O que grande parte das pessoas não leva em conta, no entanto, é que essa previsão a respeito do “fim do advogado” deve ser vista como a profissão em seus MOLDES ATUAIS”. Ou seja: o advogado não vai desaparecer, sumir do mapa. Mas sua atuação tem grandes chances de sofrer transformações drásticas por conta do potencial de colaboração advindo da Web 2.0.
Por motivos parecidos, já se argumentou que os jornalistas estariam com seus dias contados, e com uma morte prevista para ainda mais breve (para daqui 6 anos, para ser mais exata – isso sem entrar no mérito da discussão sobre a necessidade de diploma). Apesar das previsões apocalípticas, o que se tem observado é que, ao invés de se extinguirem, as profissões estão se transformando. Vejamos o caso dos jornalistas. Com a onda de colaboração e participação, o jornalista pode deixar de ser aquele que coleta e produz a notícia, para se tornar o que confere, seleciona e hierarquiza as informações. Mesmo aqueles que ainda produzem conteúdo, também passam a receber a nova tarefa de lidar com comentários, com opinião dos leitores (co-autores?) no mesmo espaço e praticamente ao mesmo tempo da emissão. Em síntese, jornalistas precisam aprender a administrar comunidades.
Com advogados também poderá ser assim, mas com um pouquinho mais de tempo para a reformulação da profissão. Em entrevista à Revista Época de 04 de fevereiro, Susskind afirma que “A internet encoraja a comunicação e a colaboração. No futuro, teremos comunidades de clientes dividindo os custos de serviços jurídicos similares. Também haverá na rede roteiros gratuitos sobre as leis”. Desse modo, assim como os jornalistas 2.0, o advogado do futuro também deverá aprender a gerenciar comunidades (aquelas, nas quais, por exemplo, os consumidores lesados discutirão a melhor solução para seus problemas similares, com base em leis, que já se encontram na Internet, e nos roteiros didáticos ainda a serem criados). E não é algo para um futuro remoto, para daqui 100 anos. É algo para agora.
O questionamento de Richard Susskind sobre o fim dos advogados virá na obra “The End of Lawyers?”, prevista para ser lançada ainda este ano. Enquanto o livro não fica pronto, é possível acompanhar um suplemento especial do Times Online para discussão do tema. Sínteses de trechos da obra podem ser conferidos no espaço, além da opinião de outros profissionais – advogados ou não.
Via Bricolagem High Tech.
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Assunto paralelo: realizou-se hoje uma blogagem coletiva contra a pedofilia, organizada por Luma Rosa, do Luz de Luma. Vários blogueiros participaram da iniciativa (a lista completa pode ser acessada aqui). Tomei conhecimento da iniciativa um tanto em cima da hora, a partir de um post do Gustavo D’Andrea (aliás, ele próprio um autêntico advogado 2.0), e não deu tempo para participar. De qualquer modo, vale a pena conferir as discussões levantadas sobre a temática blogosfera afora.
Twitter e consumo de notícias
Uma pergunta para aqueles que seguem veículos jornalísticos no Twitter (G1, Último Segundo, BBCBrasil, etc.) – vocês efetivamente acompanham o que dizem os veículos, ou preferem tomar conhecimento dos fatos pelas atualizações dos amigos? (Óbvio que não me refiro aqui àqueles que lêem notícias apenas pelo Twitter – seria insano, não? – mas aos que, além de recorrer a outros sites e meios, também acompanham notícias pelo Twitter).
Chris Garrett, do Blog Herald, questiona se o Twitter não estaria modificando nossos hábitos de consumo de notícias. Garrett comenta que a maior parte das notícias que ele lê atualmente é lida a partir do Twitter (em detrimento de outros meios ou de outros sites). Mas não necessariamente essas notícias vêm da mídia tradicional – ele também fica sabendo das novidades a partir das sugestões dos amigos.
O questionamento veio logo após a morte de Heath Ledger, em janeiro – ocasião em que os usuários do Twitter mostraram-se particularmente ávidos em (re-)informar a novidade, disputando o direito ao furo (ou re-furo, pois reverberavam um fato anteriormente divulgado pela mídia). Mas será que as pessoas realmente acompanham o que diz a grande mídia, ou preferem ler o que seus amigos dizem sobre o que diz a grande mídia? É mais ou menos assim: é mais provável que você tenha tomado conhecimento da morte do Heath Ledger porque algum dos seus amigos comentou sobre o fato (algo como “oh, pobre Ledger, era tão novo e foi dessa para uma melhor”) do que propriamente por ter visto a atualização do G1, por exemplo, com link para matéria sobre a morte. Não sei quanto aos outros, mas, de minha parte, já até desenvolvi uma espécie de “filtro subconsciente” para o mar de atualizações no Twitter, e na maior parte das vezes acabo ‘pulando’ o que dizem os veículos para ler logo as atualizações dos amigos.
Para quem busca notícias, o Twitter traz alternativas interessantes. Há desde empresas jornalísticas que disponibilizam bots automáticos para manchetes e links (mais ou menos desempenhando o papel de um feed) até complexos projetos colaborativos que contam com a participação de vários usuários (também tem vários experimentos praticamente desertos, mas isso é outra questão). A idéia geral é que, se você seguir vários bots de notícias no Twitter, é possível receber notícias o tempo inteiro. Mas isso, por si só, não significa que a pessoa estará bem informada. É como ao assistir televisão: se você não assistir ao telejornal, não vai ficar sabendo das notícias (e isso vale mesmo que a televisão esteja ligada durante o jornal, mas você esteja longe dela).
Assim, há um problema prático ao se usar o Twitter para tomar conhecimento das notícias: como Tamar Weinberg aponta em seu post sobre o consumo de notícias em redes sociais, publicar notícias é apenas uma das 17 maneiras de se utilizar o Twitter, o que significa que é extremamente fácil se perder no fluxo contínuo de informações (a menos que se crie uma conta APENAS para acompanhar notícias, o que ainda leva ao segundo problema prático de simplesmente se esquecer que essa conta existe e voltar a consumir informações apenas na conta principal do Twitter – aquela que tem seguidores, permite falar e ser lido e responder às mensagens dos outros).
Com isso, retorno à pergunta inicial: dentre os que acompanham notícias pelo Twitter, quantos, efetivamente, o fazem a partir de veículos tradicionais? E, só para complicar ainda mais as coisas, substituta “Twitter” por “Internet” ao longo do post, e tente responder à pergunta, tentando pensar na relação blogs, redes sociais, conteúdo colaborativo X sites tradicionais de notícias.
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Assunto paralelo: Lembram da perguntinha embutida como assunto paralelo alguns posts atrás? Obtive o imenso total de QUATRO respostas, e cada respondente anônimo (ou quatro vezes a mesma pessoa) informou ter chegado ao blog de uma forma diferente… Dos quatro, dois chegaram por feed, um por link em outro blog, e outro por indicação de amigos. Veja o gráfico abaixo:
Interpretação absurda dos dados: Versão otimista: tenho apenas quatro leitores, dos quais dois são fiéis (assinam o feed). Dos dois fiéis, um tem blog e colocou link para o meu blog em algum lugar (o que explica o leitor que chegou por link em outro blog). O outro leitor do feed indicou o blog para um amigo (o que explica o quarto leitor). Versão pessimista: Tenho um único leitor, e este, sentindo pena, respondeu a pergunta quatro vezes, de formas diferentes e aleatórias. Versão pulso-cortante: Eu mesma respondi o questionário quatro vezes, enquanto testava o sistema, e esqueci de apagar os dados. Versão super otimista: o questionário estava fora do ar, daí muitas possíveis respostas se perderam. Versão extremamente otimista: o Google entrou em colapso com tantos acessos ao questionário que esqueceu de coletar as milhares de respostas obtidas. Versão realista: colocar uma pergunta teste como assunto paralelo em uma postagem sobre outro assunto não foi uma boa idéia 😛 (e vejam que insisto no erro, colocando o resultado novamente em assunto paralelo).
Quer uma solução mágica para a pirataria? Expulse os infratores da Internet!
Uma matéria do The Guardian informa que o Departamento de Mídia, Cultura Esportes do Reino Unido pretende criar uma lei para reprimir o download ilegal de músicas e filmes no Reino Unido. A lei imporia como punição máxima, a partir de um acordo com os provedores, a expulsão da Internet dos usuários que reincidirem no crime de baixar arquivos ilegais, em um sistema de três “chances”:
– Na primeira infração detectada, o usuário receberia um e-mail de alerta para que não repita a prática;
– Se reincidir, recebe uma suspensão do serviço de Internet;
– Caso insista, o contrato de acesso à Internet é encerrado.
Segundo estimativas do governo britânico, cerca de 6 milhões de usuários fazem downloads ilegais a cada ano no Reino Unido. (No Brasil, de acordo com um relatório da Federação Internacional de Produtores Fonográficos, são 1,8 milhão de downloads ilegais por ano.)
Bom, vejamos… Primeiro, impedem a pessoa de converter as músicas de um CD para mp3. Daí o cidadão recorre à web para conseguir alguma coisa para ouvir em seu iPod, e acaba ficando sem acesso à Internet. Fica complicado escutar música assim, não?
Alguém dúvida que, caso essa lei seja posta em prática, surgirão muitas alternativas para burlar o sistema? (vide caso do Hulu, teoricamente restrito a usuários norte-americanos) A lógica P2P simplesmente não tem mais como ser controlada (embora haja caminhos para reduzir a pirataria).
Digamos que a lei do Reino Unido seja criada, e eles até consigam suspender o serviço de algum usuário, mas o que impediria essa pessoa de contratar conexão por outro provedor, ou acessar a Internet a partir de outros computadores? Impedir a conexão à Internet de um indivíduo que faz download ilegal requereria um esforço tremendamente absurdo, que poderia ser melhor empregado para reprimir outros tipos de crimes virtuais.
Pensar pequeno
“It is the small groups of people that have started the revolutions. It is the small companies that become the industry disruptors. And finding your small group to speak to could be the biggest thing you’ve ever done.”
Isso foi dito por Spike Jones, da Brains on Fire, no contexto de mensagens publicitárias. A idéia é de que uma mensagem focada a um grupo pequeno, bem circunscrito, tem mais chances de ser ouvida (assimilada, compreendida e respondida) do que uma mensagem ampla dirigida a muitos de uma vez só – visto que a massa já está acostumada a receber muitas mensagens amplas, o que pode fazer com que mais uma não seja percebida. Em síntese, pensar pequeno pode fazer com que se vá longe.
Spike Jones parte do texto de Seth Godin “Small is the new big“, originalmente aplicado ao contexto das empresas (cuja premissa básica é: pequenas empresas podem ir longe desde que pensem grande). Godin também se refere aos blogs: “Small means you can tell the truth on your blog”.
Spike convoca-nos a pensar pequeno, no sentido de produzir mensagens para pequenos nichos de pessoas, de modo a se fazer ouvido (na verdade, ele só quer vender o seu peixe, mas abstraia o fato de que ele falou isso no blog de uma empresa). Saindo um pouco do mundo corporativo e dos anúncios publicitários, isso talvez possa ser usado para refletir quanto à quem, efetivamente, gostaríamos de dirigir uma mensagem em um blog – a uma massa de anônimos provenientes de sistemas de busca, que entram, interagem minimamente com o conteúdo, e vão embora, sem deixar nada (exceto, talvez, como ocorre em certos blogs, algum rendimento financeiro, advindo muitas vezes da exploração da capacidade intelectual dos visitants), ou a um grupo específico, que, ainda que pequeno, reaja às mensagens, e possa nos permitir iniciar uma conversação?
(quanto a essa discussão, vale a pena conferir os últimos posts de Ana Brambilla sobre monetização).
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Assunto paralelo: a possibilidade de criar formulários associados a planilhas do Google parece ser extremamente útil (Jeff Jarvis, do Buzz Machine, mostrou-se particularmente entusiasmado com a idéia). Aliás, aqui vai uma pergunta teste: como você chegou a este blog?
Notícia em 20 palavras
O site argentino 20palabras.com suspendeu suas atividades no início de fevereiro. O motivo: seus criadores pretendem dedicar-se a outros projetos.
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Não é nada fácil dar uma notícia completa em apenas 20 palavras. Mas essa era a proposta do 20palabras.com, um projeto argentino idealizado por Pablo Mancini e Darío Gallo, inspirado na idéia de brevidade do Twitter. No ar desde setembro do ano passado, junto com as notícias curtas, o site também trabalhava com uma proposta de redação descentralizada, e apostava em publicações a partir de e para dispositivos móveis.

Ao suspender suas atividades, o projeto demonstra as dificuldades que ainda se enfrenta ao se tentar inovar online. As vinte palavras que José Luis Orihuela, do eCuaderno, usou para comentar a suspensão das atividades do 20palabras.com sintetizam bem essa idéia: “un proyecto original que se toma um respiro porque innovar no es fácil y triunfar no es barato. Hasta pronto”.
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Também na linha de propostas inovadoras em jornalismo que não tiveram fôlego para ir adiante está o ChicagoCrime.org. O projeto de Adrian Holovaty estava no ar desde 2005, e usava dados do departamento de polícia de Chicago para mapear os crimes ocorridos em Chicago. Dava para navegar por tipo de crime, ou por localização. O mapa criado por Holovaty foi um dos primeiros mashups criados com o Google Maps, em uma época em que acrescentar dados a um mapa não era nada fácil (hoje, basta ter uma Google Account para fazer isso). O projeto foi o vencedor do Batten Awards for Innovations in Journalism no ano de 2005.
Mas a idéia do ChicagoCrime não morreu por completo – foi incorporada ao EveryBlock, um projeto mais abrangente de jornalismo hiperlocal, também idealizado por Holovaty.
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Ver grandes idéias chegarem a um fim em tão pouco tempo nos faz repensar os rumos do jornalismo digital. (Mas vai dizer que não seria bacana tentar misturar tudo isso e fazer uma salada mista do tipo notícias colaborativas via Twitter em caráter hiperlocal e posicionadas sobre um Google Map??? — foi mais ou menos isso o que o Google tentou fazer na Super Terça…)
Tradução colaborativa do Facebook
O Facebook anunciou ontem a versão em espanhol do site. A partir de segunda-feira, todos os usuários provenientes de países de língua espanhola passarão a acessar o Facebook em espanhol automaticamente. Quem quiser, pode mudar o idioma em Accounts > Language.
Lembram o que escrevi algum tempo atrás sobre a tradução colaborativa do Facebook? Bom, esqueçam. O post tinha sido feito sem saber muitos detalhes sobre como efetivamente funcionaria a tradução. Na verdade, ela funciona assim: alguns usuários (ou todos, não sei) de países que possuem o espanhol como língua nativa foram convidados a adicionar o aplicativo Translations. Esse aplicativo não está disponível em uma busca pelo site, e, ao menos em tese, só é possível acessá-lo mediante o recebimento do convite.

Dentro do aplicativo, há uma lista de expressões que ainda precisam ser traduzidas, uma lista para votar nas traduções já feitas (no sistema positivo/negativo; o que permite que traduções toscas possam ser facilmente removidas), e um quadro com o ranking dos tradutores (sim, quem traduz mais fica em primeiro, quem traduz menos vai lá para o fim da lista – nada como estimular a competitividade entre colaboradores).
Quem tem o aplicativo Translations em seu perfil já pode acessar há um bom tempo não só a tradução para o espanhol, finalizada, como também as traduções em andamento para francês e alemão – estas últimas previstas para estarem prontas até abril. A tradução mais perto de ser finalizada e com mais colaboradores é a para o francês. E não, ainda não tem português na fila de tradução.
O Facebook foi traduzido para o espanhol por cerca de 1.600 pessoas. Cada um podia sugerir traduções para os textos do site, ou então votar nas traduções já realizadas. Até onde sei, a minha única tradução aceita foi “Mejores Carreras” para “Top Races” (?), o que não parece ser uma contribuição lá muito relevante, até porque não tenho nem idéia de onde deveria aparecer isso. Fiz outras sugestões, mas elas acabaram ficando para trás nas votações. Também votei em muita coisa. Como era possível pré-visualizar o Facebook em espanhol ainda durante o processo de tradução, ficava mais fácil de perceber alguns absurdos, e correr para a votação para tentar resolvê-los.
A tradução colaborativa parece ter dado tão certo que o Facebook planeja disponibilizar a tecnologia para outros desenvolvedores.
Via Mashable.
2008, o ano dos mashups?
Anteontem, na Super Terça (dia decisivo nas prévias das eleições norte-americanas, em que 24 estados iriam decidir seus candidatos do lado democrata e republicano), Google, Twitter e Twittervision anunciaram uma ferramenta que permitia acompanhar ao vivo, em um mapa, os comentários que estavam sendo feitos no Twitter sobre as votações (além de agregar notícias do Google News sobre o assunto). O resultado do cruzamento de dados era/é algo que mistura informação hiperlocal (é possível saber o que pensam os eleitores em cada ponto dos Estados Unidos, e do resto do mundo), com a lógica do tempo real (as atualizações do Twitter vão pipocando sobre o mapa, e ao lado, era possível acompanhar, ao vivo, o andamento da apuração da votação em cada estado – os dados da apuração também eram fornecidos em um gadget), a partir do cruzamento de informações provenientes de mais de uma fonte (ou seja, um mashup). O resultado é um grande volume de dados expostos de uma forma visualmente interessante.

Como se não bastasse isso… os vídeos relacionados às eleições postados no YouTube também foram posicionados em um mapa – o que permitiu acompanhar em vídeo as reações à votação Internet afora. No mapa, há ícones que diferenciam os vídeos postados por usuários do YouTube, por empresas jornalísticas, e por candidatos democratas ou republicanos. Significado disso tudo: um volume imenso de informação sintetizado e apresentado com uma boa dose de criatividade. (Ou, na fórmula sintetizada do Google Maps Mania: Google Maps + Twitter + Twittervision + YouTube + Google News = The Google Super Tuesday Map).

Não é à toa que Paul Bradshaw do Online Journalism Blog chamou a Super Tuesday de “Mashup Election” (“If 2004 was the blogged election, and 2006 the YouTube election, 2008 is the mashup election. The bar has just been raised. Again”). Ele também levanta questionamentos quanto ao modo como as pessoas consomem informações atualmente (para onde é mais provável se dirigir um jovem eleitor – para o site de um jornal, ou para YouTube ou Twitter, para um texto seco e sério, ou para algo dinâmico e divertido? A gente chega à informação de forma tradicional, entrando na home page de um megaportal, ou de uma forma mais social/viralizada, indo de site em site a partir de sugestões de amigos?).
Mas os dois mapas não foram algo isolado. A tendência parece ser produzir cada vez mais infográficos e mashups, cada vez mais conteúdo multimídia. As próprias prévias das eleições norte-americanas já foram objeto de inúmeras outras “experiências jornalísticas”, por assim dizer. De jogos a mapas, de infográficos multimídia a mashups. Quer mais? O Mashable trazia ontem uma lista com 40 fontes para acompanhar a Super Terça, muitas delas realmente interessantes.
É esperar para ver o tanto que a criatividade de empresas jornalísticas e empresas de Internet (o que seria o Google?) serão capazes de produzir ao longo deste ano. (E tomara que o material produzido nas eleições regionais aqui no Brasil seja no mínimo remotamente parecido com o que tem aparecido lá nos Estados Unidos).
Via Blog da Raquel.
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Em tempo, a pergunta que não quer calar: qual é o plano secreto do Google para o Jaiku??? — porque ninguém, em sã consciência (empresas têm consciência?), compra uma ferramenta de microblogging para fazer parcerias gratuitas com o concorrente direto dessa ferramenta…
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Atualização — percorrendo a barreira de feeds acumulados dos últimos dias, vi que O Biscoito Fino e a Massa tem feito uma cobertura completa das votações, inclusive tendo realizado uma interessante cobertura em tempo real das primárias da Super Terça. Os posts são uma fonte excelente para quem quiser compreender um pouco mais a fundo como funcionam as eleições nos EUA. (Não sabe por onde começar? Que tal partir de um ABC das eleições americanas, e ter uma aula rápida sobre cada um dos principais pré-candidatos?)
Como não tratar seus clientes
Tivemos um pequeno contratempo nestas férias. No domingo, fomos a uma filial do restaurante Bate Coração, na Praia do Cassino, em Rio Grande-RS (não achei link de referência, apenas para a sede do restaurante, localizada no Centro da cidade de Rio Grande). A comida é boa, apesar dos preços não muito convidativos. Mas a parte ruim aconteceu quando saímos de lá – mais precisamente, ainda no estacionamento (ou no que tudo indicava ser um estacionamento; há controvérsias).
Ao sair de lá, encontramos o vidro do carro quebrado. Não houve grandes danos materiais (notamos a ausência de um radinho a pilha e dos fones de ouvido do celular, que estavam no porta-luvas). Mas o que realmente estragou a noite foi a atitude do proprietário do estabelecimento.
Ora, se um carro é arrombado no estacionamento de um restaurante, o mínimo que se espera é algum apoio do estabelecimento. Mas não foi bem isso que recebemos. A primeira coisa que o proprietário fez (ressalva: não sabemos ao certo se era o proprietário, mas se comportou como tal) foi ressaltar que aquilo não era um estacionamento – apenas uma área livre entre a rua e o estabelecimento. Na verdade, há um muro com o nome do restaurante, fechado por um portão de ferro (o portão fica aberto durante a noite), e lá ao fundo está localizado o restaurante. Os carros ficam entre o muro e o prédio. Havia outros carros lá antes de chegarmos, e há espaço para uns 12 carros. Se isso não é um estacionamento, então me digam o que é.
Isto não é um estacionamento

Tudo bem, pode não ser um estacionamento. Mas o proprietário continuou, dizendo que a gente teria que se virar para dar um jeito de substituir o vidro ou tapar o buraco, visto que a concessionária mais perto ficava a 60km. Quando meu pai tentou se auto-consolar com um “espero que o seguro cubra isto”, o dono do restaurante passou a dizer que duvidava que o seguro cobriria aquilo, até porque não era propriamente o vidro lateral, e sim um pedacinho de vidro fixo ao lado do vidro do carona. Reclamamos da falta de segurança no local, e o que ouvimos foi o proprietário contar, como se isso fosse resolver alguma coisa, que no ano anterior outro carro havia sido arrombado da frente do restaurante, e que o outro cliente tinha deixado para o seguro resolver, sem envolver o estabelecimento (o que só reforça a idéia de que o lugar é inseguro, diga-se de passagem).
Enquanto limpávamos os cacos de vidro, o dono do restaurante nos ignorou por completo para falar ao telefone celular. Depois, ele reuniu o máximo de boa vontade possível e nos ofereceu um pedaço de vassoura para limpar os cacos de vidro – e só.
Saímos de lá com mais raiva do tratamento péssimo recebido após a refeição (pena que já havíamos pagado a conta), do que propriamente pelo fato de terem quebrado o vidro do carro.
Ah, sim, Sr. Proprietário… o seguro cobrirá os danos do vidro. Mas, se não cobrisse, a jurisprudência estaria a nosso favor para cobrar os danos materiais do estabelecimento (quer queira, quer não, aquilo é um estacionamento, o que confere ao proprietário do terreno os deveres de um depositário – e a obrigação de restituir o bem depositado nas mesmas condições em que foi deixado).
Não sei o que ele poderia ter feito nessa situação (oferecer um pedaço de papel ou plástico para cobrir o espaço ocupado pelo vidro quebrado seria o mínimo, não?). Mas certamente ironizar sobre a situação não ajudou em nada. Na dúvida, é mais seguro pedir comida por tele entrega, do que ir a um restaurante com estacionamento espaço livre entre a rua e o prédio para se colocar carros com aparência de estacionamento.
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Hoje, ao escolher um lugar seguro para almoçar – mais especificamente, um lugar em que pudéssemos estacionar com segurança um carro com um grande buraco na porta do carona sem que terminassem de furtar os objetos ali remanescentes (algo como… o rádio do carro?) -, saiu, sem querer, a piada pronta que a situação toda fornecia:
– E que tal se a gente procurasse um lugar que tenha estacionamento?
Cenas do cotidiano
“Uma galinha, uma galinha, uma galinha, uma galinha”
Agora há pouco, no McDonald’s, uma família finalizou o seu lanche, e a mãe levou as crianças ao caixa para escolher a sobremesa. O menino mais novo notou que, ao lado do caixa, estavam expostos os brinquedos desse mês do McLanche Feliz. Tendo se interessado por uma das opções, a criança começou a gritar, estridentemente:
“Olha, mãe, uma galinha! Eu quero uma galinha, uma galinha, uma galinha, uma galinha”.
Ao que a mãe responde:
“Mas meu filho, já tens o coelho”.
A criança olha para o próprio coelho, olha para o mostruário dos brinquedos, e continua:
“Mas é uma galinha, uma galinha, uma galinha, uma galinha. Eu quero uma galinha, uma galinha, uma galinha, uma galinha”.
Quer saber qual é a galinha que o menino tanto queria? Confira abaixo, do material de divulgação dos brinquedos deste mês:

E então, já descobriu qual deles é a galinha?
O Papa-léguas ou Bip-Bip é, na verdade, uma ave típica do deserto norte-americano, mais ou menos do tamanho de uma galinha (e aqui terminam as semelhanças com galinhas). Nos EUA, é conhecida como Roadrunner. Tanto galinhas quanto papa-léguas pertencem à classe das aves, mas são de ordens diferentes: as primeiras são galliformes, enquanto os últimos são cuculiformes.
Mas, baseando-se apenas na aparência, a criança não errou totalmente ao chamar o Papa-léguas de galinha. Ou acaso vocês sabiam antes que animal era o Bip-Bip?
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A conversa do dia
Na mercearia:
“Ficaste sabendo do Beto Carrero?”
“Pois é, menina. E ele tinha a aparência de ser tão mais novo, coitado”
“É, mas mó-reu”.
No Twitter:
“A grande notícia do dia é a oferta da M$”
“A Microsoft quer comprar o Yahoo! para poder rivalizar com o Google!”
“Ai, meu deus, o que será que vai acontecer com o Flickr?”
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Vou tirar férias da tecnologia. Até depois do Carnaval 🙂