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Procurando lógica no nome dos esmaltes

Fugindo um pouco (completamente) da temática (!) do blog…
Descobri que existe uma cor de esmalte com o meu nome. Quer dizer, eu já sabia que existia esmalte nessa tonalidade, e sabia que o nome dessa cor era Gabriela. Mas nunca tinha parado para pensar no real significado disso. E muito menos tinha me dado conta do grau de falta de lógica na escolha de nomes para cores de esmaltes – e, em geral, para todos os produtos. Ou melhor, para tudo.
Dos mais enigmáticos – como Samba Juliana, Misturinha ou Paris – e o próprio Gabriela (por que não?) – aos que possuem uma relação metafórica um tanto mais óbvia (como Terra, Bege, Jabuticaba ou Framboesa), o que se percebe é que as palavras utilizadas para designar as cores de esmaltes têm as origens mais diversas*. A parte estranha é que elas significam, independente de terem ou não alguma lógica na relação metafórica que estabelecem com a cor que representam. Pergunte a qualquer mulher com uma relativa vivência de salões de beleza, e ela saberá nomear várias cores, inclusive algumas com nomes bizarros bastante criativos (aliás, achei particularmente interessante a história por trás da cor Samba Juliana…).
Na prática, o que acontece é que é o uso da língua que imprime os mais variados sentidos para os nomes. Não há como prever os usos possíveis. O significado vai ser dado pelo contexto do uso. E, quanto maior o uso, maior o peso de uma marca. Às vezes chega a ser tão forte que por vezes o sentido original se apaga: a palavra passa a significar o novo produto que designa. Também há vezes em que o próprio nome do produto passa a designar a coisa que significa (mais ou menos a lógica que nos impele a chamar as fitas adesivas de durex, mesmo que saibamos que, no fundo, se trata de uma das inúmeras marcas de durex fitas adesivas…).
A própria escolha dos nomes de blogs, por exemplo, segue uma lógica um tanto aleatória. Ontem, participava com um amigo em um brainstorm pra a escolha do nome de um novo blog. O nome escolhido foi completamente diferente da idéia original – a escolha do nome passou por vários critérios, inclusive pela disponibilidade de endereço (de nada adianta querer um nome básico e supercomum, se todos os endereços comuns já foram tomados).
Mas o pior não foi parar para pensar e perceber que os nomes dos esmaltes (e dos blogs) são estranhos e aleatórios. O pior foi constatar que os nomes de todas as coisas são estranhos e aleatórios – a língua é arbitrária, as palavras são arbitrárias. O universo é arbitrário, tudo é arbitrário! Às vezes nos sentimos confortáveis ao utilizarmos referenciais familiares. Mas a verdade seja dita: a graça da coisa é atribuir às palavras novos sentidos. Sem que houvesse (re)invenções de sentido, estaríamos condenados a empregar eternamente um pequeno e reduzido número de signos.

* Não sei por que cargas d’água fiz isso (talvez não fosse conseguir dormir tranqüila sem ao menos saber os nomes), mas elaborei uma listinha de nomes de esmaltes (das marcas Risque, Impala e Colorama). Tentei agrupar de uma forma mais ou menos lógica — veja o resultado aqui. Vai dizer que os nomes não são esquisitos [e aleatórios]?

Os Simpsons e o fim da imprensa

Em um episódio recente dos Simpsons, o personagem Nelson debocha do fim dos jornais impressos. Confira abaixo o vídeo (mas assista logo, antes que retirem novamente do YouTube – caso isso aconteça, ainda resta a opção de assistir pelo Hulu [desde que você consiga burlar o sistema e acessar com nacionalidade estadunidense]):


Caso já tenham removido: o personagem aponta para um jornalista da versão impressa do Washington Post e diz: “Hah, hah, your medium is dying!”, ao que é advertido: “There’s being right and there’s being nice”.
Ele está certo? Talvez – muito provavelmente – não. Segundo dados divulgados pela WAN em 2007 (referentes a 2006), os índices de circulação de jornais impressos estão em baixa apenas na América do Norte. No restante do mundo, a imprensa segue firme e forte – e até com tímidos crescimentos. Ou seja: muito provavelmente ainda teremos jornais impressos circulando por aí durante muito tempo. Mas e vocês, o que acham? A imprensa ainda tem futuro?
(Só para constar: depois que assisti ao vídeo, resolvi procurar no Google alguma coisa sobre o fim do jornal em papel – sabe como é, para não deixar o post com um vídeo solto, sem texto – e me deparei com meu próprio blog como primeiro resultado… [!]).
Via O Lago.

Assunto paralelo: a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos irá disponibilizar seu acervo de fotos no Flickr. Uma parte das imagens já está por lá. Como está tudo em domínio público, dá para usar livremente. Em contrapartida, cabe a nós, usuários, colaborar para incluir etiquetas/tags nas fotos. Uma troca justa. E em sintonia com o mundo 2.0. (Mais informações sobre o projeto aqui).

A arte de reconhecer um erro


Errar é umano. Mesmo assim, espera-se da imprensa que haja um alto nível de precisão nas informações divulgadas. Erros – especialmente aqueles que são cometidos e não reconhecidos – atingem em cheio a credibilidade de uma publicação.
O impacto de um erro é amenizado quando esse erro é reconhecido. É por isso que os jornais impressos e as revistas costumam trazer pequenos quadradinhos em cantinhos obscuros de suas publicações informando os erros cometidos em edições anteriores. Na Internet, o processo se torna ainda mais fácil, pois, além de ser possível ter uma página ou seção apenas para apontar os erros e suas respectivas correções, o próprio texto errado pode ser corrigido.
É a partir dessa possibilidade de correção que surgiu o blog Regret the Error. Criado em outubro de 2004 pelo jornalista Craig Silverman, o blog traz uma seleção de correções, retratações, pedidos de desculpa e esclarecimentos com relação à acuidade e honestidade na mídia. Em entrevista ao Poynter Online, Silverman conta que dedica de uma a três horas por dia a seu blog. Para encontrar material, ele visita as seções de correções de erros dos principais sites de língua inglesa, e conta com a colaboração do público.
Segundo ele, os erros mais comuns são de digitação em nomes e títulos (como o que pode ser visto neste post aqui, do Gilberto), números ou cálculos errados (como no caso de fazer conversões de moeda de forma equivocada) e equívocos em identificar quem disse ou fez algo. “A grande maioria dos erros factuais são acidentais. Sabemos ou podemos facilmente obter a informação correta, mas algo dá errado em algum ponto do processo de coleta, escrita, edição e produção”, diz Silverman. E pondera: “Posto de forma simples, erros afetam a credibilidade. O público percebe os erros, e eles notam quando nós não os corrigimos”. Atitudes simples, como ensinar os jornalistas a reconhecer os próprios erros (visto que é imposssível querer exigir de alguém a perfeição total) podem ajudar a acabar com o tabu do erro nas redações.

Após visitar o Regret the Errors, resolvi ir em busca de correções de notícias em sites brasileiros. Não fui muito a fundo em minha busca, mas encontrei seção de correção de erros em pelo menos três grandes sites: Uol, Terra e Folha Online [o que é ótimo; sinal que os três sites estão preocupados em corrigir seus erros – entretanto, nem todos os sites possuem espaço para correções e, dentre os que têm, nem todos são tão rápidos quanto gostaríamos]. A Folha Online ainda vai além – o site apresenta uma Antologia do Erramos, que apresenta uma seleção de correção de erros da edição impressa do jornal Folha de S.Paulo desde 1991. A idéia é que divulgar esses erros possa servir para evitá-los em outras oportunidades.
Segue abaixo uma seleção aleatória de erratas recentes nos três sites:
Folha Online – Erramos
Tráfico X Tráfego
“Diferentemente do publicado na reportagem “Pequim tem mais de mil novos carros por dia” (Ambiente – 14/01/2008 – 11h43), o tráfego de automóveis está em crescimento, e não o tráfico. O texto, produzido pela agência Ansa e reproduzido pela Folha Online, já foi corrigido.”
SMS X MSN
“Diferentemente do informado no texto Multinacional acusa Rede TV! de violação de direito autoral (15/11/2007 – 12h40), os lances do programa “Lance Perfeito” podiam ser feitos via SMS, e não MSN. A informação foi reproduzida do site do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, onde consta a descrição do processo. O texto já foi corrigido.”
Década X Século
“Diferentemente do que foi publicado na reportagem Blog relata aventuras de soldado da Primeira Guerra Mundial (07/01/2008 – 16h26), o leitor do blog tem a mesma sensação que a família de Harry tinha há quase um século, e não há quase uma década. O texto já foi corrigido.”
UOL – Erros [reparem na quantidade de erros corrigidos na editoria de Esportes!]
Esporte: Kenenisa Bekele é homem
“A reportagem “Etíope vence Meeting de Edimburgo pela 3ª vez e se vinga de rival” informou incorretamente que Kenenisa Bekele era mulher. Na verdade, o atleta é homem. O erro foi corrigido.”
Esporte: Sport é de Pernambuco
“A reportagem “Cruzeiro acerta novo empréstimo de Carlinhos Bala ao Sport-PE” informou incorretamente que o Sport era da Parabíba (PB) (sic). Na realidade, o time é de Pernambuco (PE). O erro foi corrigido.”
Ciência e Saúde: México não faz parte da América Central
“Diferentemente do publicado na reportagem “Um terço dos latino-americanos com HIV vive no Brasil, diz ONU“, da AFP, o México não faz parte da América Central. O texto já foi corrigido.”
Terra – Correções
Doadores X receptores
“Ao contrário do que foi publicado anteriormente pelo Terra na notícia Órgãos de homem morto em SP vão para 7 receptores , no dia 2 de janeiro de 2008, às 22h54, os órgãos de Ed Carlos do Amaral, 39 anos, morto durante uma tentativa de assalto em Camburi, litoral norte de São Paulo, no dia 31, serão doados para sete receptores e não doadores. A informação foi corrigida no mesmo dia, às 23h28.”
Itaririri
“Ao contrário do que foi publicado anteriormente pelo Terra, na notícia SP: chuva dificulta retorno a residências alagadas, no dia 15 de janeiro de 2008, às 9h13, o nome correto da cidade é Itariri e não Itaririri. A informação foi corrigida no mesmo dia, às 9h38.”
Estupro X Atentado violento ao pudor
“Ao contrário do que foi publicado anteriormente pelo Terra na notícia OAB: doente mental foi violentado em prisão do PA, no dia 29 de novembro de 2007, às 16h27, o adolescente de 16 anos, com deficiência mental, foi violentado e não estuprado por vários presos. Só é considerado estupro a relação forçada entre homem e mulher. A informação foi corrigida no mesmo dia, às 17h05.”

Em tempo: caso não tenha ficado claro: sim, o erro da primeira frase do post foi intencional. Mas está lá só para tentar ilustrar o quanto um erro fica menos bizarro quando o veículo que erra se retrata… 🙂

Journalism Enterprise

Paul Bradshaw, do Online Journalism Blog, lançou oficialmente ontem o Journalism Enterprise, um blog coletivo voltado à crítica de empreendimentos na área de Jornalismo na Internet. A idéia é lançar um olhar crítico sobre o potencial das novas empresas jornalísticas da era pontocom – ou, como o próprio Bradshaw diz, mais ou menos como um TechCrunch para iniciativas jornalísticas:

“There are so many experiments by so many people in so many fields – from journalists going it alone to large news organisations trying new projects, from amateurs who feel passionately about their field to non-profit organisations who see the potential of the web, and from internet startups to established new media players, I thought we needed a blog to keep track of it all and provide a place for debating the issues involved”

As críticas seguem um padrão fixo de seis perguntas (inspirado no blog New Music Ideas):
What do they say it is? (O que eles dizem que é?)
What do I say it is? (O que eu digo que é?)
What’s great about it? (O que é interessante sobre isso?)
What could be better? (O que poderia ser melhor?)
How is it going to make money? (Como irá fazer dinheiro?)
Should I pay it any attention? (Devo prestar alguma atenção?)
(O jornalista Alex Gamela, de Portugal, teve a idéia de aplicar essas perguntas ao próprio Journalism Enterprise. O resultado é interessante.)
A equipe do blog é formada por blogueiros de várias partes do mundo (inclusive esta que vos fala), e está aberta à participação de todos que queiram colaborar, sugerindo sites para serem analisados, ou então analisando sites.
Em dezembro, fiz uma crítica ao Yoosk?, um site de origem britânica cuja proposta é realizar entrevistas colaborativas – qualquer um pode sugerir e votar nas perguntas, além de poder escolher quem será o entrevistado. Como contrapartida, o site se encarrega de tentar obter as respostas do entrevistado – desde que as perguntas atinjam um número mínimo de votos. A parte mais interessante é que a versão da crítica postada no OJB (antes de o Journalism Enterprise ser lançado oficialmente, as críticas eram postadas no próprio Online Journalism Blog) obteve uma resposta. E, ao entrar no Yoosk dias depois, foi possível notar que algumas das mudanças anunciadas no comentário à crítica foram efetivamente implementadas 🙂

Assunto paralelo: ficaram sabendo da última do judiciário brasileiro, envolvendo os jovens cariocas Fernando Mattos Roiz Júnior e Luciano Filgueiras da Slva Monteiro? O juiz Joaquim Domingos de Almeida Neto atribuiu uma multa de R$ 10 mil para os veículos de comunicação de massa que divulgarem os nomes ou a imagem dos rapazes (há ainda um terceiro, menor de idade). O crime? Os três playboyzinhos agrediam prostitutas e travestis com extintores de incêndio. A idéia da restrição à divulgação dos nomes seria proteger as vítimas de possíveis represálias. Seria. Não há como conter a blogosfera. Além do mais, o Judiciário brasileiro (e a própria mídia de massa, que não reagiu de forma veemente ao caso) precisa entender que censura prévia não combina com uma democracia – ao menos nesse caso, a liberdade de imprensa parece ser um bem mais valioso a ser considerado. [Ok, paro por aqui, antes que o assunto paralelo fique maior que o próprio post…]

Como comentar em um blog

Sabemos que as caixas de comentário são espaços democráticos para discussão do tema dos posts (ou qualquer outro assunto que se queira abordar ou discutir). Blogs são revolucionários como veículos de comunicação na medida em que proporcionam um espaço para que seus leitores se manifestem junto ao post.
O problema é que com o tempo aumentou a burocracia em torno da caixa de comentários. Vários fatores fizeram com que se tivesse de reforçar a segurança para se deixar um comentário, de modo a evitar comentários maldosos ou ofensivos, e os temíveis spams.
Confira abaixo o que você precisa fazer para comentar em um blog:

– Tenha em mãos documentos de identificação como CPF e título de eleitor.
– Escaneie um comprovante de residência, por precaução.
– Para cada blog, faça o cadastro, preenchendo seus dados pessoais, para poder comentar. Como todos os nomes de usuários legais já foram tomados, crie um nome de usuário bizarro. Esqueça o nome de usuário toda vez que for comentar, e repita o processo de cadastro a cada tentativa de manifestar sua opinião, em cada blog.
Use um e-mail válido para o cadastro – eles provavelmente vão exigir confirmação do cadastro por e-mail.
Seja breve e sucinto, pois os CAPTCHA geralmente operam com um reduzíssimo período de time-out.
– Efetue a soma exigida.
– Encontre as letrinhas embaralhadas em um fundo confuso.
– Tome cuidado com a escolha das palavras. É preciso provar que se é humano, ou, do contrário, seu comentário irá ser barrado por algum filtro de spam.
– Os comentários são moderados. Volte mais tarde para ver se o comentário foi aceito. Do contrário, repita o processo, e comente (tente comentar) de novo.
– Comemore a democratização propiciada pelos blogs 🙂

Leve sátira para entrar em clima de domingo… O CAPTCHA é malvado, sim. Mas é só aprender a domá-lo que tudo se torna mais simples. Dica do dia: aperte ‘Preview’ antes de enviar um comentário. Aparecerá um novo CAPTCHA, com o prazo de time-out restabelecido 🙂

Direitos humanos e blogs

O Dia Internacional dos Direitos Humanos é celebrado (talvez celebrar não seja o termo mais adequado) acontece, todos os anos desde 1950, no dia 10 de dezembro. A data não foi escolhida por acaso: 10 de dezembro assinala o aniversário da promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ocorrida em 1948, na França. Mas mais do que propriamente ‘comemorar’ alguma coisa, a data é marcada pela realização de eventos em todo o mundo, dentro e fora do âmbito da ONU, que procuram, além de ‘comemorar’ os avanços obtidos, também refletir sobre a temática dos direitos humanos.
No ano passado, um grupo de blogueiros organizou uma campanha em prol dos direitos humanos. O objetivo do desafio “Um Mundo, Uma Vida” era usar o dia 10 de dezembro de 2007 para refletir sobre os direitos humanos em blogs. Sob a forma de uma blogagem coletiva, a ação foi organizada por Sam Cyrous, de Portugal, e, ao todo, contou com a participação de 101 blogs, a maior parte deles do Brasil. [se cada texto tiver sido lido por pelo menos 10 pessoas – alguns foram lidos por menos, outros blogs possuem maior visibilidade – são pelo menos 1.000 pessoas convocadas a refletir sobre a temática]
Confira abaixo a entrevista que fiz por e-mail com Sam Cyrous sobre a campanha. As informações foram utilizadas para fazer esta matéria, sobre direitos humanos.

Como você teve a idéia de iniciar a campanha Um mundo, Uma vida? De onde vem a preocupação com os direitos humanos?
Sam – A minha preocupação pelos Direitos Humanos vem da minha infância. A minha religião é a Fé Bahá’í e fui educado com esse amor à Humanidade, à diferença e aos valores humanos. E, na minha infância, lembro de ter lido ou ouvido nalgum lado as palavras de Bahá’u’lláh (o Fundador da Fé Bahá’í) comparando a Humanidade ao corpo humano, perfeito em potencial mas afligido por doenças diversas. Ele admoestava as pessoas dizendo: “Sede como os dedos de uma só mão, os membros do mesmo corpo” e, desde então, essas palavras ficaram em minha mente. Entendo-as pensando que se tenho dor num braço, o equilíbrio de todo o corpo será alterado e o outro braço faz um esforço acrescido para manter o equilíbrio, como que ajudando o primeiro até que ele se recupere; e, por isso, será igual para o género humano! Com uma diferença: enquanto houver pessoas, mundo afora, que sofram por alguma forma de opressão, preconceito, ódio, genocídio ou qualquer outra dessas doenças que afligem o nosso mundo, não só é nossa função ajudá-los até que se reestabeleça esse equilíbrio, como deveria ser o nosso objetivo diário ajudar, de alguma forma, a que esse equilíbrio se reestabeleça.
Por que uma blogagem coletiva?
Sam – As blogagens coletivas existem, há pelo menos, um ano. Quando pela primeira vez ouvi falar do tema foi através do Lino Resende (outro blogger) e achei que isso só poderia ser a prova que a internet tem um impacto incomparável. Quando há cento e cinquenta anos atrás chumbo derretido era derramado garganta abaixo dos bábís, na Pérsia, ou há cinquenta anos atrás o nazismo começava a dizimar em câmaras de gás judeus, ciganos e pessoas rotuladas com “inútil”, não havia Internet! Imagine o que teria acontecido se houvesse Internet e se houvesse blogs! Os povos do mundo teriam bradado pelos direitos dessas pessoas: o genocídio arménio na Turquia ou a morte de milhões de pessoas nos campos de concentração poderia ter sido impedido se uma pessoa tivesse anunciado em seu blog o que estava acontecendo. Imagine então a força que teriam cem pessoas juntas, em blogs de diversos países e em diversos idiomas. Imagine a força que essas pessoas juntas poderiam ter. Esses dedos da mesma mão, trabalhando juntos…
Quantas pessoas participaram da iniciativa, em quantos países? A campanha atingiu a repercussão esperada?
Sam – Eu decidi não criar expectativas, mas estabeleci uma visão, uma meta: o limite mínimo de cem pessoas. Confesso que houve momentos que achei difícil chegar lá, mas o Lino e outros bloggers iam me encorajando e a campanha, naturalmente, foi avançando, até ao próprio dia, no qual, de repente, houve uma explosão e mais umas quarenta ou cinquenta pessoas anunciaram presença. Entretanto, através de motores de busca fui descobrindo que havia pessoas que participaram, mas que, por algum motivo, não estavam inscritas. Ou seja, apesar do número oficial ter sido 101 blogs, de 12 países, e três idiomas, acredito que houve mais participantes que eu posso nem ter notado. É assim que a informação funciona: houve quem simplesmente participasse da campanha, sem saber que era uma “blogagem coletiva”. Mas o importante é mesmo isso e, infelizmente, é só isso que se poderia fazer: aumentar o nível de consciência das pessoas. Se a campanha atingiu a repercussão esperada? Havia quem nunca tivesse lido a Declaração Universal dos Direitos Humanos, ou quem nunca tivesse pensado que direitos, deveres e oportunidades deveriam ser coadunados, ou quem nunca sequer ponderasse a necessidade de apoiar determinados grupos ou pessoas. Só o fato de se ter levantado a ponta do véu e ter feito algumas pessoas pensarem sobre algumas coisas já foi para além de tudo que eu pudesse esperar.
A campanha já foi realizada em algum outro ano, ou será realizada novamente este ano?
Sam – Não, é a primeira vez que o fizemos. A blogagem surgiu este ano, depois de muito pensar sobre a sua viabilidade. Eu sou aquilo que se pode chamar “verde” nos blogs. Tenho um amigo (Vítor Sousa) cujo blog conseguiu impulsionar a candidatura da pessoa que ficou em segundo lugar nas últimas eleições presidenciais portuguesas, mas eu, com um blog com pouco mais de um ano de vida, não poderia sequer esperar eleger uma caixa de cereais como a melhor da mercearia do lado (risos).
Mas, entretanto, notei a nobreza das pessoas no exemplo do Blog Action Day, organizado por um australiano com quem partilho uma visão bastante semelhante do mundo, vi que há temas que movem e motivam as pessoas, há temas que nos tocam a todos! No caso do Blog Action Day o tema era o ambiente, e no caso Um Mundo, Uma Vida eram os Direitos Humanos.
A experiência deste ano provou que as pessoas se interessam pelos seus Direitos. Por isso mesmo, pondero seriamente experimentar uma nova campanha neste novo ano. Em que moldes? Ainda não sei, mas muito provavelmente, se for o caso, será revisto.

Você acha que a blogosfera se preocupa o suficiente com a situação dos direitos humanos, ou ainda há muito o que fazer com relação à temática?
Sam – Dói-me saber que ainda há um longo caminho a seguir! Ainda não aprendemos a nos preocupar com o nosso irmão humano que é preso e torturado no Irã por ser bahá’í, morto na Somália, aquela nossa irmã injustiçada na Arábia e por aí em diante… Ainda não chegamos àquele ponto em que nos vemos como gotas do mesmo oceano…
Parece-me que a blogosfera — e refiro-me apenas àquela que é dotada de uma real blogoconsciência — é, como quase tudo, um mundo de modas: as pessoas querem seguir o rebanho e discutir a democracia na Venezuela, os erros cometidos no Iraque, a liberdade de imprensa na Rússia; mas quando o Egito, que é um dos responsáveis pela manutenção dos DH em sede das N.U., tem comportamentos miseráveis nesse campo, me pergunto: quantos blogs de língua portuguesa falam disso? Ou, quando houve a cimeira entre a União Europeia e a África, em Lisboa, e se debateu a polemizada vinda de Qadafi, quem se levantou para falar da situação na Somália? Falou-se do Darfur, o que já é um excelente passo, mas o Darfur é a segunda maior tragédia humana do nosso século e poucos de nós sabemos qual é a primeira! Fala-se do Paquistão agora, por causa das eleições e da morte de Bhutto, mas e antes? Fala-se agora no Burma, por causa das manifestações, mas e antes? Os povos dessas nações estão oprimidos há anos, mas só hoje as pessoas mostram interesse; aliás, nem sei se interesse ou curiosidade…
O que essa campanha pelos Direitos Humanos, através da internet e dos blogs, mostrou foi que há, algumas pessoas que se interessam. Pessoas que demonstram ter uma consciência para além das suas realidades pessoais, que pensam para além da política local, regional ou nacional, e que acreditam que a Terra é, deveras, um só país e que nós todos podemos ser cidadãos ativos e conscientes desse único país. Acredito que para além dessas cem pessoas, haja outras mais e que nós todos juntos, unidos na diferença, poderemos mudar o mundo. Passo a passo isso poderá acontecer, dentro e fora da Internet.

Número de acessos X relevância do conteúdo

Mais uma prova de que rankings são bastante relativos. Seamus McCauley do Virtual Economics fez uma análise das notícias mais lidas em 2007 em alguns veículos online, e constatou que há uma presença marcante de notícias relacionadas a sexo ou a animais (e, mais ainda, a sexo com animais) no topo dessas listas. Ou seja: notícias bizarras atraem a atenção das pessoas (okay, não há potencialmente nenhuma novidade nisso). Segundo ele, haveria uma distância entre o que os jornalistas querem escrever, e o que os leitores gostariam de ler (o que não é lá muito diferente do que concluiu este estudo do PEJ).
Partindo do post de McCauley, o jornalista britânico Shane Richmond fez algumas considerações interessantes em seu blog (no Telegraph.co.uk), mais ou menos tentando explicar o que passa na cabeça de um leitor que decide ler uma notícia sobre um homem que fazia sexo com bicicletas (a segunda notícia mais lida no Telegraph.co.uk, considerando apenas leitores do Reino Unido). Suas considerações não têm base científica alguma, são apenas especulações. Mas basicamente se resumem ao seguinte: as notícias mais acessadas não são necessariamente as melhores notícias, pois nem sempre o que chama mais atenção, à primeira vista, é o conteúdo que estávamos procurando a princípio. Ele usa como exemplo um leitor hipotético que entra no jornal toda quinta-feira para ler notícias sobre música. Esse leitor entra, localiza na página inicial o que procura, mas aquela manchete bizarra do homem com a bicicleta lhe desperta a curiosidade, e ele acaba abrindo-a primeiro, antes de partir para as notícias sobre o mundo da música. Parece um cenário possível, não? A grande pergunta é: a notícia sobre o homem fazendo sexo com a bicicleta é relevante para ele? Talvez – muito provavelmente – não. Mas esse leitor, mesmo sem querer, contribuiu para aumentar os índices de visitação da notícia do homem com a bicicleta…
Richmond conclui seu texto sugerindo que, “In a Venn diagram of readers interests, the most popular stories sit in the centre. They’ve caught a little bit of everyone’s attention but they might not be anyone’s most important story.”
Assim, por mais que uma notícia tenha recebido muitos acessos, isso não quer dizer que ela seja relevante. Não é à toa que estão repensando o modelo de medição de audiência de sites – de quantidade de page views para tempo de permanência em cada página.
Blogosfericamente, isso não significa que a gente precisa passar a postar apenas sobre assuntos bizarros para conseguir atrair leitores. Não, longe disso. Mas as considerações servem para refletir se se o que desejamos é simplesmente aumentar o número de visitas (e, para isso, bastam posts bizarros) ou gerar conversação (o que requer a produção de textos relevantes, ainda que rendam pouca visitação).
Via OJB Agregator.

Assunto paralelo: o xkcd fez uma tirinha sobre os resultados do Google para tipos de mortes bizarras. À época de elaboração da tirinha, eram apenas dois resultados no Google para “died in a blogging accident” (referentes a este post aqui). Depois da tirinha, o número de resultados já aumentou para 2.990. E continua subindo…

Pelo direito de ouvir músicas de um CD em um iPod

Fica difícil conseguir escutar música legalizada quando não se pode nem ao menos passar para mp3 as músicas que vieram no CD original que você comprou. No Reino Unido é assim. Vigora por lá um monstrengo legislativo, segundo o qual não é permitido fazer nada além de ouvir em um CD Player as músicas dos CDs que você compra legalmente. Qualquer outro ato, mesmo que para uso pessoal, seria considerado pirataria. Após muita reclamação e discussão (falava-se em um “direito legal à cópia privada”), isso poderá mudar.
O ministro de propriedade intelectual do Reino Unido, Lord Triesman, anunciou uma possível mudança nas regras, que poderia tornar a troca do formato das músicas uma permissão legalizada, desde que realizada apenas para uso privado. Claro que já surgiram questões como “o que seria, exatamente, um uso privado?”, além de gente descontente com a possibilidade de implementação da medida – ora, os músicos prefeririam que fosse preciso pagar novamente pela música para se poder ouvi-la em outros formatos. Mas com certeza já é algum avanço. De qualquer modo, não faz sentido manter em vigor uma lei que 55% das pessoas não respeitam.
As controvérsias musicais também andam em alta nos Estados Unidos. Por lá, a RIAA tem sido motivo de piada pela série de decisões desfavoráveis ao pessoal que compartilha músicas pela Internet. Já teve gente condenada por baixar músicas no KaZaA, e recentemente a possibilidade de passar para mp3 músicas adquiridas em um CD legalizado foi questionada em um artigo do Washington Post (que, posteriormente, foi corrigido, e teve sua correção questionada pelo blog Threat Level da Wired). No site da Associação, consta a afirmação de que, “If you make unauthorized copies of copyrighted music recordings, you’re stealing. You’re breaking the law, and you could be held legally liable for thousands of dollars in damages” (para quem se interessar por acompanhar as decisões nem sempre acertadas da RIAA, há o blog Recording Industry vs The People).
Talvez seja hora de rever os limites das legislações que protegem as músicas. É possível adquirir músicas (e outros produtos) de forma apenas legalizada, sim. Mas medidas retrógradas como impedir de ouvir em um iPod as músicas que vieram em um CD apenas estimulam as pessoas a optarem cada vez mais pelo caminho da pirataria.
Via Mashable (via shared items do Tiagón).

Em tempo: nossa Lei de Direitos Autorais também não é um primor legislativo. Mas, pelo visto, não são só os legisladores brasileiros que são dinossáuricos…
No Brasil, a entidade que regula os direitos autorais da produção musical é a APCM, Associação Anti-pirataria de Cinema e Música. A Associação foi criada em meados de 2007. Antes disso, no finalzinho de 2006, os brasileiros tiveram de enfrentar a discussão da pirataria na disponibilização de legendas de seriados e filmes – os sites LostBrasil e Legendaz foram processados por pirataria pela então ADEPI (posteriormente fundida, juntamente com a APDIF, na APCM). No site da APCM, é possível conferir a posição da Associação quanto às legendas: “a confecção de legendas e sua disponibilização para download constitui violação de direitos autorais e, como tal, deve ser reprimida, o mesmo ocorrendo com a dublagem”.

Um sistema de buscas para derrubar o Google?

Agora no começo de janeiro entrou no ar, em versão alpha, o Wikia Search, o sistema de buscas proposto por Jimmy Wales, fundador da Wikipedia. A proposta é acabar com o monopólio do Google a criação de um buscador social de código aberto, de modo que, tal qual ocorre na Wikipedia, todos possam contribuir para tornar os resultados melhores.
O Techcrunch fez um post praticamente detonando o projeto, dizendo que os resultados são terríveis e que não há nada de ‘social’ no Wikia. O próprio Jimmy Wales respondeu, nos comentários às postagens, que se trata de uma criação dentro do conceito de ‘release early, release often’, explicando que “It’s a project to *build* a search engine, not a search engine”. Em termos objetivos, isso significa que o projeto foi posto no ar, mesmo que ainda não esteja pronto, para dar mais transparência ao desenvolvimento do produto.
Por enquanto, o que se pode fazer é criar uma conta, preencher dados em um perfil (à lá rede social, com direito a adicionar amigos, e acompanhar os movimentos deles a partir de um friend feed), e sugerir textos para os “mini-articles” que aparecem no topo das buscas – que na verdade são caixinhas de texto com uma definição curta sobre o que se está procurando (mais ou menos o que se obtém com o comando “define:” do Google, sendo que a diferença é que essa pequena definição pode ser elaborada coletivamente). Ao procurar por um termo, como o Twitter, por exemplo, os resultados mostram uma definição curta, e algumas fotinhos na lateral, de pessoas que adicionaram o Twitter como palavra-chave em seu perfil. Por enquanto, isso é tudo de social que há no buscador. Os resultados são terríveis porque ainda não se investiu em ferramentas para iniciar a construção coletiva do buscador. Mas há planos de, aos poucos, implementar novas ferramentas. Ou seja: não será da noite para o dia que irá surgir um buscador para derrubar o Google…
Enquanto isso, outras tentativas de combater o poder do Google continuam pipocando por aí. O Mahalo aposta em páginas de resultados construídas manualmente. Há bem menos termos indexados do que em outros buscadores, mas a qualidade do conteúdo impressiona (como exemplo, veja o resultado para “Twitter”). Já o Powerset traz a proposta de criar um buscador semântico, que não só procure pelo resultado, como também entenda a busca (veja exemplo aqui). Para isso, conta com uma equipe de colaboradores em todo o mundo. Por enquanto, as experiências são feitas a partir da base de dados da Wikipedia (aliás, e por que o Wikia não parte do acervo da Wikipedia para fazer seus testes com os resultados das buscas?).
São propostas diferentes. Resta saber se alguma delas conseguirá, enfim, derrubar – ou, pelo menos, abalar – o monopólio do Google.

Assunto paralelo: a Verbeat está mais verde. Estreou hoje, no condomínio, o blog coletivo Faça a sua parte.

A fumaça do bom direito

A fumaça do bom direito (mais conhecida nos livros jurídicos pela tosca expressão latina ‘fumus boni iuris’) é a fumacinha que sai de nossa cabeça quando nos deparamos com juridiquês excessivo um termo jurídico absurdo utilizado para quando há fortes indícios de que se tem um determinado direito alegado, mas cuja situação de fato ainda precisa ser comprovada (mais ou menos dentro do princípio de que onde há fumaça, pode ser que haja fogo). Nos casos de antecipação de tutela [breve explicação: quando se tem fortes motivos para querer que uma decisão seja dada, em caráter provisório, antes do fim do processo, sob pena de o processo em si ser ineficaz/inútil], a fumaça do bom direito aparece como requisito, ao lado do perigo da mora [ou o risco que se pode ter com a demora na satisfação da pretensão].
Assim como nem sempre uma fumaça indica a existência de fogo, a fumaça do bom direito é apenas um indício de que existe o direito. Basta que o direito seja, à primeira vista, verossímil, a partir da apresentação de indícios de que se deve ter acolhida a tutela pretendida, para que o requisito seja preenchido.
Mesmo que a existência da fumaça do bom direito tenha lá seu fundamento para o mundo jurídico, nada me tira da cabeça que essa expressão soa completamente não jurídica. (Fumaça? Bom direito?)