All posts by Gabriela Zago

Do inimaginável ao real

Do epílogo do livro “A inteligência coletiva”, de Pierre Lévy:

O possível é aquilo que não parece impossível, mas que não leva em conta as condições presentes, e sim as condições que não contrariem a lógica ou as leis físicas. Já o factível é aquilo que é possível levando-se em conta as condições presentes de transformação. Nesse contexto, o desenvolvimento da técnica tem por função diminuir a distância entre o possível e o factível (o que era possível há alguns anos atrás pode se tornar factível quando um determinado instrumento técnico passa a permitir que algo que era antes apenas considerado apenas como possível seja de fato realizável). A esfera do factível envolve tudo aquilo que pode ser transformado em algo concreto e real, a partir dos recursos tecnológicos que se dispõem em determinada época, em determinado lugar.
A ciência amplia a esfera do possível. O desenvolvimento científico torna o impossível possível (e os instrumentos técnicos levarão o possível ao factível, e a ação humana transformará o factível em real). O impossível também pode ser tornado possível em uma obra literária de ficção científica. Nesse caso, trata-se de um real ficcional: o impossível torna-se possível, factível ou até mesmo real dentro da perspectiva daquela obra. Fora da obra, será novamente considerado impossível.
A cultura, por sua vez, permite que se faça deslocamentos da esfera do inimaginável ao imaginável. E o pensamento permite que se vá do inimaginável ao imaginado (algo só será imaginado após ter sido cogitado pela primeira vez em nosso pensamento…). O inimaginável não existe, talvez apenas em potência: é preciso imaginar alguma coisa, é preciso pensar que algo é possível, para que esse algo saia da esfera do inimaginável e parta para a esfera do imaginado (para então poder adentrar na esfera do possível, do factível, e assim por diante).

Desse modo, o caminho para que algo seja realizado é:
– Pensamento, que leva do inimaginável ao imaginado;
– Cultura, que leva do inimaginável ao imaginável;
– Ciência, que leva do imaginável (mas impossível) ao possível;
– Técnica, que leva do possível ao factível;
– Ação humana, que leva do factível ao real.

Lévy (1999) desenvolve esse caminho não em uma cadeia linear, mas em um movimento espiral, que vai do inimaginável ao real. No contexto da obra, esse caminho é apresentado para mostrar que a inteligência coletiva não é, de fato, uma utopia. Ela se torna possível a partir do momento em que o desenvolvimento científico permite que se desenvolvam ferramentas capazes de levar o que antes era um sonho ao campo do factível.
Para que algo se torne possível, o primeiro passo é pensar. Qualquer coisa pode se tornar possível a partir do pensamento.
As ferramentas técnicas estão aí. O ciberespaço está em pleno desenvolvimento, as novas tecnologias permitem interação entre os indivíduos em tempo real. O que falta para que essa parafernália toda passe a ser usada para a construção coletiva do saber? A chave para isso tudo talvez esteja na ação.

“O papel da informática e das técnicas de comunicação com base digital não seria ‘substituir o homem’, nem aproximar-se de uma hipotética ‘inteligência artificial’, mas promover a construção de coletivos inteligentes, nos quais as potencialidades sociais e cognitivas de cada um poderão desenvolver-se e ampliar-se de maneira recíproca” (1999, p. 25)

Referência:
LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva – por uma antropologia do ciberespaço. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

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You Tube fora do ar

Tirar o YouTube do ar no Brasil por causa da Cicarelli é a mesma coisa que culpar o entregador de pizza porque a pizza veio errada. Será que o problema não ocorreu lá na pizzaria, ainda na cozinha, ou talvez na distribuição? O vídeo objeto da controvérsia não está disponível apenas no YouTube. Há outros sites de vídeos. E há outros vídeos no YouTube. Numa analogia bastante forçada, seria o mesmo que tirar toda a Rede Globo do ar porque foi veiculada uma cena muito pesada na novela das oito. Ou, pior: tirar a Globo do ar por causa de uma determinada imagem, mas que também foi veiculada em todas as emissoras. Absurdo. Na tevê não tirariam uma emissora do ar. Por que na Internet haveria de ser diferente?

A atitude, em blogs de outros países, está sendo comparada à censura que o Google exerce/tolera/consente em países como a China.

Pergunta cretina: a culpa é da Cicarelli, do paparazzi, das pessoas que colocaram o vídeo no ar, das pessoas que não contiveram sua curiosidade mórbida e assistiram o vídeo, do YouTube, ou de todos?

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Revivendo os tempos de ditadura

O acesso ao YouTube está bloqueado. Ao que parece, alguns provedores de Internet do Brasil decidiram seguir a decisão judicial que determinava o bloqueio do site até que o vídeo da Cicarelli fosse totalmente removido, mesmo com as tentativas do desembargador que proferiu a decisão de esclarecer que a intenção de sua decisão era a de restringir o acesso ao vídeo, e não ao site inteiro.

Esse caso está dando o que falar. No Technorati, as tags relacinadas ao vídeo da Cicarelli só perdem para as postagens sobre o vídeo de Saddam na forca. Pessoas do mundo inteiro têm se manifestado sobre a disputa judicial entre a modelo e o site de vídeos.

Será o retorno aos tempos de ditadura, numa espécie de versão hi-tech da censura?

De qualquer modo, como a decisão não impedia o acesso ao site, então não é considerado “ilegal” acessar o YouTube por outros métodos.

P.S.: Parece que o acesso ao site foi bloqueado pela Brasil Telecom.

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Mais um capítulo da novela Cicarelli X YouTube

Por um erro de interpretação, correu o mundo a notícia de que o YouTube iria ter seu acesso bloqueado no Brasil por conta do famoso vídeo da Daniela Cicarelli com seu namorado na Espanha. Só que a decisão na verdade determinava que o site deveria restringir o acesso de brasileiros ao vídeo da Cicarelli (e não ao site inteiro do YouTube). Não é de hoje que a Justiça brasileira decide contra a Google. Antes já teve a guerra contra o Orkut (que resultou na mudança dos termos de uso do site e na quebra de sigilo dos usuários).

Se o problema foi de interpretação da decisão judicial, será que não seria mais fácil simplificar a linguagem jurídica? É por essas e outras que todo operador de Direito deveria fazer também o curso de Jornalismo – para aprender a descrever de forma simplificada os fatos do mundo 😛

Em tempo: qual é a graça em bloquear o acesso ao vídeo aos 46 do segundo tempo, quando qualquer internauta que se preze já assistiu às cenas? Já tem até paródia na rede (o vídeo foi feito pela Secretaria de Saúde do RS).

Em tempo 2: acabei de perceber que o site do YouTube não está abrindo aqui. É só comigo, ou o-site-foi-bloqueado-em-todo-o-Brasil-por-causa-da-Cicarelli?

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Extremely Loud & Incredibly Close

Em linhas gerais, trata-se da história de um menino de 9 anos que perdeu o pai no 11 de setembro. Mas, na prática, é muito mais do que isso. “Extremely Loud & Incredibly Close”, de Jonathan Safran Foer (Inglaterra, Penguin Books, 2006, 326 pp.), é um livro bastante original, capaz de fazer rir e chorar. Para começar, a história é contada sob a ótica de Oskar Schell, um menino de nove anos que também é inventor, faz bijuterias para seus amigos e família, tem interesse em assuntos como astronomia, arqueologia, computadores, entre outros – em suma, trata-se de um garoto especial. Há ainda trechos da história que são contados sob a ótica dos avós do menino. O resultado é um livro muito bem costurado, no sentido de que a história é composta por diversas tramas paralelas, mas todas elas se entrelaçam muito bem ao longo do texto. Outro diferencial é que o livro não conta a história apenas com textos. Há imagens, passagens impressas de forma diferenciada, e até mesmo páginas em branco – que, no contexto da obra, possuem um determinado significado.
Mas a trama principal decorre do ataque terrorista de 11 de setembro. Pouco depois da morte de seu pai no trágico incidente no World Trade Center, Oskar encontra uma chave entre as coisas de seu pai, e parte numa saga de aventuras ao redor de Nova York em busca da fechadura que tal chave abre. “I figured that if you included everything – from bicycle locks to roof latches to places for cufflinks – there are probably about 18 locks for every person in New York City, which would mean about 162 milion locks, which is a crevasse-load of locks” (p. 41). O resultado é uma narrativa leve mas divertida, na qual o narrador-detetive-amador parte em busca da fechadura perdida na esperança de, com isso, poder se aproximar ainda mais de seu pai.

Para quem tiver interesse, é possível ler o primeiro capítulo da obra na Internet.

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Flixster

Uma nova rede social para se viciar.


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Ano novo, vida nova?

Não entendo por que as pessoas ficam tão entusiasmadas a cada ano novo. Em tese, há apenas uma mudança de calendário. Na prática, as segundas-feiras tediosas de trabalho continuarão a ser segundas-feiras tediosas de trabalho. A grande diferença é ter que se acostumar a colocar um sete ao invés do seis ao final da data em cada página, em cada texto, em cada anexo, em cada e-mail, em cada fax, em cada folha. Fora isso, muito pouca coisa muda. Fisicamente, há a mudança de calendário. Essa tarefa pode ser particularmente complicada para pessoas que possuem vários calendários de papel, dos mais variados formatos e estilo em sua casa – desde o clássico ímã de geladeira com as folhinhas que vão sendo removidas à medida que os meses vão passando, até o grande calendário promocional de parede. Há também aqueles calendários triangulares que se costuma colocar sobre a mesa. Uma solução para isso seria se adotar calendários multianuais. A troca continuaria a ter de ser feita. Mas em espaços temporais bem mais distantes um do outro.
Outra mudança diz respeito ao fato de que estaremos ainda mais próximos de completar mais um ano de vida. A mudança de ano tem o poder de constatar a passagem inexorável do tempo. A cada ano ficamos um ano mais velhos, um ano mais distantes do instante do nosso nascimento e um ano mais próximos do final – embora não se tenha como saber quando é esse tal de final.
Também pode acontecer, a cada dois anos, e por conveniência da troca de ano no calendário, a troca dos governantes no poder. Este ano teremos uma nova governadora. O presidente continuará o mesmo. Daqui a dois anos muda o prefeito da cidade. E assim por diante e sucessivamente. Mas essa mudança não precisaria ser feita exatamente no primeiro dia de um novo ano. Apenas é feito assim por conveniência e praticidade – ora, faz sentido iniciar o ano com uma estrutura de governo inteiramente nova. Pra que mudar em julho deste se se pode mudar em janeiro do próximo ano?
Nos países do hemisfério sul, a mudança de ano também corresponde a uma mudança de ano no calendário escolar. Ano novo, nova série. Em faculdades isso geralmente não acontece porque a estrutura curricular é semestral, e, mesmo nas que são anuais, muitas instituições permitem o ingresso no meio do ano. Mas nas escolas, sim. E como passamos cerca de onze anos na escola, trata-se de um fato bastante relevante. Mas e o que dizer do pessoal que vive no hemisfério norte? Por lá, as escolas costumam ter o começo do ano letivo no meio de um ano para terminar no meio do ano seguinte. Será que por lá o ano novo não deveria ser comemorado no meio do ano? Não, porque as escolas seguem na verdade o ciclo de estações do ano. Aqui no Brasil é apenas uma fatídica coincidência que a cada ano corresponda a um novo período escolar. Poderia ser diferente.
Mesmo que na prática não haja muita diferença na mudança de um ano para outro, o grande reflexo disso tudo pode ser percebido na atitude das pessoas. São as pessoas que fazem com que a mudança de ano seja um grande acontecimento. E assim, costumam projetar grandes expectativas com relação ao ano que se inicia, mesmo que, em tese, nada seja diferente do ano que recém termina. Todos traçam metas improváveis, criam planos mirabolantes, planejam o impossível, na esperança vã de que o ano novo represente uma nova vida. O que se cria é uma estrutura artificial, um ano novo fictício. Mas ao final do ano seguinte essas mesmas pessoas constatarão, resignadas, que nada mudou. Tudo continuou igual, e, por isso, projetam no ano seguinte aquilo que não conseguiram realizar no ano que está por terminar. E o ciclo continua. E a cada ano se comemora a chegada de um novo ano, como se a mera mudança no calendário fosse capaz de nos trazer um novo sopro de vida…

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Breve consideração sobre a virada

Entrei em 2007 soluçando. A crise, dessas que começam do ano e terminam sabe-se-lá como, iniciou quando cheguei na festa de reveillon (lá penas 3h30 da madrugada) e só foi terminar depois que voltei para casa (pós 7h30). 2007 promete ser um ano interessante.

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A Máquina do Tempo

“Foi assim que vi as coisas em minha última contemplação do mundo de Oitocentos e Dois Mil Setecentos e Um. Pode ser a explicação mais falsa que ocorreria ao espírito de um mortal. Mas foi desse modo que tudo se me delineou, e é desse modo que lhes apresento”.

Livro

Minha última leitura de 2006 foi “A Máquina do Tempo” de H. G. Wells. A história é bem interessante, e se se considerar a época em que ela foi escrita (final do século XIX), pode-se dizer que o autor tinha realmente uma mente absurdamente criativa. Trata-se da narrativa de uma viagem no tempo para o futuro. Um inventor, denominado “viajante no tempo”, cria um dispositivo acionado por alavancas capaz de fazer com que quem o estiver operando possa avançar ou retroceder no tempo a velocidades variáveis. Tal feito seria possível ao se considerar o tempo como uma quarta dimensão (assim como altura, largura e profundidade). Desse modo, as pessoas poderiam se mover não só pelo espaço, mas também pelo tempo.
O futuro descrito na obra é habitado por seres diferentes dos atuais. No ano de 802.701, há duas espécies principais sobre a Terra. Esses seres, embora bastante diferentes, teriam derivado da espécie humana. Há os que vivem sobre a superfície e há os que vivem sob a terra.
Talvez o único inconveniente da obra é que o autor coloca a política como tema transversal na história, o que às vezes torna a leitura um pouco doutrinária. Mas, no geral, a narrativa é bastante interessante.

Máquinas do tempo

O que me levou a ler esta obra é que a minha nano novel de 2006 tinha como pano de fundo uma máquina do tempo. Eu provavelmente deveria ter lido este livro antes de pensar em escrever sobre máquinas do tempo (já que esta é considerada a primeira obra de ficção científica sobre máquinas do tempo), mas isso não vem ao caso. Há uma diferença principal entre a máquina de Wells, e a que inventei sem conhecimento de causa: a dele retrocede e avança em ambas as direções. A minha é unilateral: só vai ao passado. Outra diferença diz respeito às limitações tecnológicas da época. A máquina de Wells possui um funcionamento analógico, ao passo que a máquina que inventei possui controles digitais. Mesmo com as limitações, a máquina de Wells é infinitas vezes mais interessante 😛

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Direito na rede

Dica do Universo Anárquico: retrospectiva 2006 do Consultor Jurídico do Estadão de acontecimentos ligados ao Direito Informático. No artigo, o computador é comparado a um canivete suíço. Assim como o canivete, os autores vêem a tecnologia como um meio, e não um fim. O canivete pode ser usado para o cometimento de diversos crimes, que vão desde um ferimento leve (caso se use uma ferramenta menos afiada) até o cometimento de um homicídio. Assim como o canivete, o computador não é um bem jurídico a ser tutelado, e, portanto, a tendência é que a Internet se torne um tema transversal aos outros temas do Direito (e não um ramo do Direito em si). Vale a pena ler o texto inteiro para perceber os avanços que já se está tendo na área, e verificar o muito que ainda está por vir.

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