Monthly Archives: October 2005

Digressão falha

Fim de noite perfeito: chá com bolachinhas, sentada no pufe, lendo…

Pena que o livro era ruim, o chá estava quente demais, e fui interrompida pelo interfone quando estava prestes a começar a divagar… 😛

(Garanto que o resultado seria diferente se eu tivesse sucumbido à ditadura da alienação e estivesse com um copão de coca-cola, uma generosa fatia de pizza e uma revista de fofocas… 😉

Gilmore Girls

Mais ou menos plagiando quem mais ou menos me plagiou, o assunto de hoje é Gilmore Girls. Na verdade não é bem um plágio, pois ao plagiar quem me plagiou estou de fato anulando o plágio, posto que é impossível plagiar-se a si mesmo, sob pena de chegar-se ao cúmulo de realizar um auto-processo por indenizações morais [?!] (Estou confusa :P)
Enfim, o objetivo deste post é sensibilizar um eventual fã para que me ajude a retomar o projeto do site sobre a série, que há quase dois está completamente abandonado. Se você se reconhecer em alguns sintomas abaixo… parabéns! Você tem sangue Gilmore correndo nas veias (e ainda não sei como fazê-lo crer que, por isso, deve me ajudar… talvez por alguma tosca alusão à necessidade de solidariedade humana! 😀 pense nas crianças pobres da África e no quanto o mundo seria mais belo se todos ajudassem-se uns aos outros \o/).
Portanto, caros leitores (escrevo no plural, com medo de represálias :P), espero vosso apoio nessa engrenada.
Aliás, foi mexendo no site (entrevistas, traduções, colunas, matérias) e escrevendo sobre Gilmore Girls (e sobre “Ed” e “Maybe It’s Me” também) para o Séries Online que comecei a me interessar pelo Jornalismo. Devo meu futuro profissional às garotas Gilmore! (ou não, caso o destino dê uma reviravolta doida e eu passe a gostar de Direito e vire uma advogada insensível e inescrupulosa).
Então, eis a lista:

Você sabe que assiste Gilmore Girls demais quando…

– Começa a falar como a Lorelai.
– Começa a se livrar do dinheiro porque a Rory disse que ele torna as pessoas fúteis.
– Faz duas festas no seu aniversário.
– Se recusa a comer abacate e qualquer outra comida que tenha “confraternizado com o inimigo”.
– Sempre que alguém te beija, você diz “Obrigado(a)”.
– Passou a tomar café o dia inteiro, esperando que isso a torne uma Gilmore.
– Vai numa cafeteria todos os dias às 16:12 [essa é antiga; a Lorelai fazia isso nas primeiras temporadas]
– Começa a só sair de casa com um livro na bolsa.
– Sonha em ir à Stars Hollow, mesmo sabendo que as Gilmore Girls não moram lá de verdade. [e que Stars Hollow não existe… :P]
– Na hora de comprar frutas no supermercado, rola elas no chão para ver se estão aguadas.
– Passou a achar que franceses têm medo de cisnes.
– Fica surpreso quando alguém chega na hora certa para um encontro.
– Chama seus professores de Norman.
– Num momento difícil, diz que um derrame seria providencial.
– Compra um franguinho e põe o nome de Stanley se for macho ou Stella se for fêmea.
– Mettalica passou a ser sua banda favorita. [é a banda favorita de Lorelai]
– Passou a guardar seus CDs embaixo do chão.
– Passou a achar que remoer mágoas queima calorias.
– Fez a lista dos seus 5 maiores inimigos.
– Coloca seu nome na sua filha.
– Quer fazer um enterro para o seu gato quando ele morrer.
– Não quer internet a cabo, porque prefere dançar e fazer sanduíches enquanto espera pela conexão convencional.

– Quer mais? Visite o site 😀

Se você não se identificou com os sintomas, não fique triste… dá para acessar a [tosca] lista de dicas de como se tornar uma garota Gilmore! E se, mesmo assim, você ainda não estiver satisfeito com o resultado (pombas, você é chato ein? :P), na seção de testes há outros métodos [felizes] para determinar se você é uma garota Gilmore 😀

E.. er… mesmo que você chegue a conclusão que não tem nada de Gilmore na veia… Se estiver a fim de ajudar, entre em contato 😉 Os fãs da série agradece[ria]m =)

Anedotas de relógios

Estou com medo do meu relógio de parede da sala. Ele fazia um tique-tique macabro e nunca marcava a hora exata. Então resolvi mexer nos ponteiros para ver se melhorava, e a coisa só piorou. Agora, o ponteiro das horas fica imóvel, inerte, abandonado à própria sorte no número 6 (que é o número mais ao sul do relógio). E o rotineiro tique-tique deu lugar a um barulho mais bizarro, como se o ponteiro dos segundos tremesse de pavor a cada vez que passasse pelo número 6. É um silvo semelhante ao de uma chaleira fervente. Assustador. Se o relógio fosse digital, eu acharia que é uma bomba! Aliás, preciso me preocupar com quando for o dia 06/06/06, às 6 horas e 6 minutos e 6 segundos??
Mas apesar de tudo, ainda acho que vale muito mais a pena usar minha única pilha para manter um relógio que só marca os minutos do que usá-la no controle remoto de uma televisão que só pega canais abertos — aliás, por que o nome do controle é controle, se no fundo o cidadão telespectador não tem a mínima liberdade de escolha; ele não decide o que ver pelo que gostaria de assistir, e sim pelo que está disponível para que se veja..
Enfim… como o medo do relógio era tanto, resolvi procurar sobre relógios no Google, e ver se me tranqüilizava (afinal, eles nada mais são que seres inanimados que giram). Minha pesquisa encontrou desde o tosco e famoso conselho atribuído a Paulo Coelho, em Brida, que diz:

“Não existe nada de completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado, consegue estar certo duas vezes por dia”

No caso do meu relógio, ele consegue estar certo durante 2 horas por dia. Ele é superior ao relógio de Brida! Durante 8% do dia ele está certo. Mas como eu não estou acordada às 6 da manhã para saber, é como se o relógio só estivesse certo durante os 4 dias da semana em que estou em casa às 18h para presenciar o “fenômeno”… Então é como se em somente 2% do total de tempo da semana eu pudesse perceber que ele está certo. E esses dois por certo ainda o tornam bem mais útil que a televisão…

A frase abaixo é interessante, mas não consegui contextualizá-la (é incrível como esses sites de frases conseguem jogar um monte de citações aleatoriamente em uma página, sem se importar em dizer de onde elas surgiram!!)

“Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem.” (Marcel Proust)

Uma piadinha clássica da turma dos relógios é a que diz:

“Que horas são quando o relógio bate treze badaladas?”
Uma hora? Duas horas? Nããão… São horas de mandar o relógio para o conserto… 😛
(por algum estranho motivo, eu adorava essa piadinha na infância… )

Em uma “antologia de leis de Murphy“, a lei 141 estatui:
141. Lei de Segal
Um homem com um relógio sabe que horas são. Um homem com dois relógios nunca tem certeza.

E é verdade… palavra de quem sai de casa sempre com dois relógios (o de pulso e o do celular). Acho que eu nem preciso do da sala…
Há também uma versão “estatística” da piada acima num site de anedotas de matemática… A diferença é que o estatístico faz a média entre as horas 😛

Para os mais científicos, este site explica como funciona um relógio de sol. Desisti de tentar entender lá pelo terceiro parágrafo… 😛

Algumas piadinhas aleatórias:

Daquelas do tipo “Qual é o nome do filme?“:
A namorada deu um relógio com sua foto para o namorado. Qual é nome do filme?
“Quem vê cara não vê que horas são!”

P: Sabem por que é que não se pode ir a selva às 6 horas?
R: É a hora em que os elefantes praticam paraquedismo.

(Alguém me explica o humor dessa piada? — ela é fruto da pesquisa por “piada às 6 horas“)

Como se diz “relógio de pulso” em somaliano?
Relógio de cintura

Eu não sabia que existia uma categoria de “Piadas de Somaliano“. Somália é meu país no Orkut 😀

Frase feliz (e sem graça):
Se tempo fosse dinheiro, meu relógio seria milionário!

Uma piada relativamente sem graça (mas que envolve relógios):
Um americano, um japonês e um português estavam no alto de um prédio e combinaram que tacariam seus relógios e quem conseguisse pegar o relógio antes de cair e quebrar no chão ganharia a disputa. Daí o americano tacou, desceu mas quando chegou já era tarde demais. Daí o japonês tacou, desceu e deu na mesma. Aí o português tacou, foi pra casa, jantou, dormiu, tomou café, voltou para o prédio e quando estava lá embaixo ele pegou o relógio caindo. O americano e o japonês perguntaram como ele fez aquilo e o português respondeu:
– Eu atrasei meu relógio 12 horas.

A piada a seguir tem diversas variantes, conforme o site de piadas que se acessa… No lugar do Bush no terceiro relógio, há até versões mais recentes que colocam o Marcos Valério!
Um cidadão morreu e foi para o céu. Enquanto estava em frente a São Pedro nos Portões Celestiais, viu uma enorme parede com relógios atrás dele.
Ele perguntou:
– O que são todos aqueles relógios?
São Pedro respondeu:
– São Relógios da Mentira. Todo mundo na Terra tem um Relógio da Mentira. Cada vez que Você mente, os ponteiros de seu relógio movem-se.
– Oh!! – exclamou o cidadão – De quem é aquele relógio ali?
– É o de Madre Teresa. Os ponteiros nunca se moveram, indicando que ela nunca mentiu.
– E aquele, é de quem?
– É o de Abraham Lincoln. Os ponteiros só se moveram duas vezes, indicando que ele só mentiu duas vezes em toda a sua vida.
– E o Relógio do Bush, também está aqui?
– Ah! O do Bush está na minha sala.
– Ué – espantou-se o cidadão, – por quê?
E São Pedro, rindo-se:
– Estou usando-o como ventilador de teto.

Três anedotinhas felizes:

Q: Why did Silly Billy sit on a clock?
A: Because he wanted to be on time!

Q: Why did the man throw the clock out the window?
A. Because he wanted to see time fly.

Pearl: When the clock struck 12 last night, I said to myself, “Pearl, everything is coming your way!”
Earl: That’s a great way to start the New Year! What did you do after that?
Pearl: I quickly pulled into the corre
ct lane!

A página diz que são piadas enviadas por crianças de 9 a 14 anos… Dê um desconto pela falta de humor 😛

Essa é fraquinha também:

The talking clock
While proudly showing off his new apartment to friends, a college student led the way into the den.
“What is the big brass gong and hammer for?” one of his friends asked.
“That is the talking clock”, the man replied.
“How’s it work?” the friend asked.
“Watch”, the man said then proceeded to give the gong an ear shattering pound with the hammer.
Suddenly someone screamed from the other side of the wall…
“KNOCK IT OFF, YOU IDIOT! It’s two o’clock in the morning!

Outra bem básica (e intraduzível!):

Why shouldnt you tell a secret around a clock?
Because time will tell.

Mais uma sem graça

Un policía le pregunta al ladrón:
¿Usted por qué le robó el reloj a la señora?
Y el ladrón contesta:
Yo no le robé ningún reloj, ella me lo dio.
¿En qué momento ella le dio el reloj?
Y el ladrón responde:
En el momento que le mostré la pistola.

Esta talvez ganhe no quesito ‘falta de humor’… Ou de tão idiota consiga ainda provocar risos 😛

– Mirá allá adelante… ¡hay un reloj en el suelo!
– Es mío. ¡Siempre se me adelanta!

Neste link há uma crônica terrivelmente conformista, profundamente ideológica, não recomendável para pessoas sensíveis e acríticas 😛 — mas é bonitinha e fala de relógios 😀

Também encontrei um livro muito legal de Lewis Carroll (pseudônimo de Charles L. Dodgson, autor de “Alice no País das Maravilhas“) sobre lógica. Um problema de relógios:
Os Relógios Loucos de Carroll – Qual dos relógios regista o tempo mais fielmente? Um que se atrasa um minuto por dia ou um que não funciona?
Solução:
O relógio que se atrasa um minuto por dia dá a hora exata de dois em dois anos, pois como se atrasa um minuto por dia só voltará a estar certo depois de se atrasar doze horas, o que só acontece ao fim de 720 dias.
O relógio que está parado está certo duas vezes em cada vinte e quatro horas. Por isso o relógio que melhor regista o tempo é o que está parado.

(Meu relógio tá com tudo então, os minutos e os segundos ainda estão funcionando!)

E, para finalizar, a obra clássica surrealista de Salvador Dalí:

A propósito, alguém aí pode me informar que horas são?

Viva o meio-termo!

Senado aprova texto, mas interpretação dada pelo governo federal garante a manutenção do cultivo do fumo.” (ZH, 28/10/05)

Interessante a saída encontrada por nossos felizes e descansados parlamentares quanto a adesão do Brasil à Convenção-Quadro contra o tabagismo. Depois de ter deixado nas mãos da população uma decisão crucial (mas inútil) como a questão do comércio de armas de fogo e munição no país, desses deputados e senadores podia se esperar de tudo…
Uma das poucas coisas [de útil e relevante para a vida] que aprendi na disciplina de Direito dos Tratados na faculdade foi que não basta ao país signatário assinar uma determinada convenção internacional; toda assinatura precisa passar ainda pelo crivo dos parlamentos nacionais.

Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional:
I – resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional;
” (CF/88)

O Brasil já havia assinado o acordo em 2003, e recentemente o ratificou. Mas o fez de forma inusitada: ao invés de concordar ou discordar do que estava escrito, encontrou uma maneira de interpretá-lo de forma diferente, de modo a possibilitar que o cultivo de tabaco continue no país, embora concorde em estimular o fim do tabagismo… (Vá entender esses parlamentares…)

“A aprovação no Senado só foi possível graças a um compromisso assumido pelo governo federal de manter as políticas de incentivo à fumicultura e o direito dos agricultores de plantarem o produto”. (ZH)

Para tanto, valeram-se de uma brecha no acordo, visto que em nenhum momento ele dispõe expressamente sobre a proibição do plantio do fumo, ou de políticas que incentivem o cultivo do mesmo. Assim, nosso feliz país não deixará de incentivar o plantio de tabaco… embora tenha acordado que lutará para fazer com que cada vez menos pessoas fumem (redução da oferta e do consumo, com medidas simples como a proibição do fumo em lugares fechados e restrições à publicidade de cigarros — coisas, aliás, que o Brasil já vem fazendo desde a assinatura do acordo). Ou seja, valeram-se do famoso “jeitinho brasileiro” para resolver a questão. Pelo menos o país também apoiará produtores que pretendam trocar de cultura.
No final das contas, agradaram a todos e a ninguém — nem as pessoas deixarão de fumar, nem o plantio deixará de se realizar. Mas tudo bem. Nenhum país deveria ratificar plenamente (sem interpretações felizes) esse acordo até que o tio Bush concordasse em acabar com o plantio de fumo e a indústria de cigarro em seu país. Do contrário os EUA ficarão livres para deter o monopólio do cigarro no mundo, sem concorrências. Sim, porque acabar com as culturas de tabaco em países [eternamente] “em desenvolvimento” é fácil. Mas acabar com o consumo de cigarros não é tão simples assim. O constante aumento no preço das carteiras de cigarro mostra que, não importa o preço, quem fuma paga o quanto for necessário. Mesmo que tenha de importar de forma ilegal o produto (pense nos consumidores de drogas ilícitas, como a maconha… será que alguém se importa com a origem do narcótico que está comprando?). Então é melhor mesmo manter, ao menos por mais algum tempo, o plantio de tabaco no país e a indústria nacional de cigarros (subsidiárias das americanas… diga-se de passagem… ao menos geram empregos para o país 😀 e sustentam várias famílias que vivem do plantio).

Só não entendi ainda como o governo pretende reduzir a oferta e o consumo de tabaco e ao mesmo tempo manter os incentivos para a produção e o cultivo do mesmo[?!] Porque alguém vai ter de consumir o que for produzido… E exportar para os outros 167 países signatários do acordo também não é solução…

Sobre livros

“Há livros que são agradabilíssimos de ler, mas sobre os quais é impossível escrever: porque mal são expostos ou comentados, damo-nos conta de que eles se recusam a ser traduzidos na proposição ‘este livro diz que’.” (Umberto Eco, Viagem na Irrealidade Cotidiana, pg. 289)

Buenas. Vamos tentar. O objetivo dessa série de posts (de hoje até, sei lá, o fim de semana, talvez) é falar de todos os livros que gostei de ler, mas nunca tinha antes conseguido traduzir esse gosto em palavras — como se a palavra escrita tivesse um poder tal ao ponto de acabar com a magia das reminiscências da leitura. Como se o texto tivesse a capacidade de dissipar a lembrança daquilo que foi lido… 😛 O que gostei no Umberto Eco é que ele faz com que você se sinta normal por pular páginas entediantes de livros longos, ou interpretando de maneira peculiar algo que todo mundo entende como uma [outra] determinada coisa…

Bom, enfim… o livro de hoje vai ser o próprio “Viagem na Irrealidade Cotidiana“. É meio injusto começar com ele, porque foi o último livro que li (aliás, nem sequer terminei; falta ler o último ensaio :P). Mas a grande vantagem é que tudo ainda se encontra fresquinho em minha memória 😀

Umberto Eco, com seu humor fino e inteligente, consegue transformar qualquer coisa em assunto. Em “Viagem na Irrealidade Cotidiana” há diversos textos do autor, sobre os mais variados temas, que vão desde fictícias discussões com personagens de livro sobre a pena de morte, até severas críticas ao fenômeno dos museus de cera nos Estados Unidos, passando pela descrição irônica de rituais de candomblé no Brasil, e culminando com textos extremamente críticos acerca da Comunicação.
O que Eco faz é mostrar que há muito de irreal (ou de “hiperreal”, como no caso do museu de cera :P) em basicamente tudo o que acontece à nossa volta. E ele o faz usando o ponto de vista da Semiótica, o que torna tudo mais interessante.
Eco fala até de Roland Barthes (e no mesmo ensaio ainda fala de Foucault, inclusive com citações de “Vigiar e Punir“); e quando ele fala de Lévy (crítica aos “novos filósofos”) cita obras como “1984” (George Orwell, um dos livros que mais gostei de ler ultimamente) e “Admirável Mundo Novo” (Aldous Huxley, terceiro livro da minha lista de leituras, logo após “Apocalípticos e Integrados”, também de Umberto Eco, e “Aula”, de Roland Barthes)…
A citação a seguir é de “Os Novos Filósofos”. A crítica de Eco nesse ensaio centra-se no fato de que Bernard Henry Lévy chegou à tosca conclusão de que o Proletariado não existe, já que nunca o viu andando por aí…

Repare-se nas magníficas conseqüências destrutivas que se poderiam tirar desse procedimento de massacre epistemológico: o número não existe (foi inventado por Pitágoras e por Peano, nunca se viu o número andando pelo pátio de uma igreja), não existem nem o triângulo (um golpe de força de Euclides), nem a Ursa Maior, pois foi um astrônomo que traçou as linhas que ligam as estrelas, que até então estavam tranqüilas no seu canto. Do átomo de Bohr, então, é melhor que nem se fale. Em poucas palavras, Lévy descobriu que a ciência é feita de abstrações e de conceitos, ou seja, que a Estrutura é Ausente, e seus nervos não agüentaram.” (pg. 312)

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Vida pós-referendum

No fim, o referendo não foi tão inútil (apesar de seguir tudo como está). Ganhou o não, não muda nada para o comércio de armas de fogo e munição. Mas o que muda é a posição da população diante da temática da criminalidade.
Por intermédio do referendo, deu-se a oportunidade às pessoas de participarem da elaboração do texto da lei. Pode ser que não tenha sido possível acabar com a criminalidade, mas o povo refletiu bastante sobre a temática, e está apto a cobrar do Estado ações efetivas — mediante manifestação se preciso –, para que sua segurança seja assegurada.
A mídia se deu mal. Achei que a Globo fosse acabar convencendo as massas a votar pelo sim, mas pelo visto a campanha feliz e meiga deles não deu muito certo. Se bem que em todo o resto do que vi, li ou ouvi (na verdade, li, li e reli, porque não vejo TV nem ouço rádio :P) percebia-se, ao menos implicitamente, uma certa “quedinha” pelo não, de extremos como a Veja (e suas capas nada imparciais) a coisas mais sutis como as abordagens sistemáticas da ZH. Só a Globo foi idiota 😛
Claro que ia ser perfeito um mundo sem armas, um mundo de dedos cruzados num gesto de paz e amor, onde ao fim todos se dessem a mão num abraço grupal, ao som de John Lennon e com o perfume de flores no ar. Mas o povo brasileiro [ainda] não está preparado para isso. Há um longo caminho pela frente, que inclui investimentos em saúde, segurança e educação. Mas não é impossível: apenas vai ser difícil chegar lá (mas quem disse que a vida tinha que ser fácil? :P).

P.S.: Em respeito aos que chegam aqui procurando por coisas as mais absurdas em buscadores (este post é em homenagem ao infeliz que chegou aqui em busca do resultado final da telesena de primavera), resolvi retomar a temática do blog (sabe.. aquela do título… ius – direito + communicatio – comunicação? :P). Portanto, assistam à queda do número de “eus” nas mensagens, para a ascensão da incessante busca pela impessoalidade 😀

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Viagem na viagem

Pela primeira vez em muito tempo percorri o trajeto Pelotas-Bagé de dia e numa janela do lado oposto ao do motorista. A paisagem era tão diferente que cheguei a me questionar, mais de uma vez, se estava no caminho certo. Eu não ia me espantar nem um pouco se o ônibus viesse a parar em um país de primeiro mundo. Tudo parecia tão fora do comum que nem parecia o mesmo trajeto que percorro cerca de uma vez a cada quinze dias. Talvez porque em outras viagens estivesse sempre tão interessada em buscar o silêncio para a leitura (ou viajasse do outro lado, como preferirem) eu perdia de apreciar a bela paisagem.
Muitas das cenas eu queria poder envolver em papel laminado para consumir mais tarde, a conta-gotas… Campos verdes, flores amarelas, céu azul (qualquer possível analogia com a bandeira do Brasil terá sido mera coincidência)… A vaca que sorriu ao ver o ônibus passar (meu egoísmo acusa: ela sorria para mim, aquele sorriso era MEU!), ruminando um lanchinho gostoso… O lago que reflete o sol…. e que em algum pontinho ínfimo do sol, lá longe, bem longe, eu tinha a certeza de que o lago também estava sendo refletido… A casinha à beira do banhado, com árvores atrás e um gramado coberto de florezinhas amarelas ao lado… é lá que eu gostaria de morar… lá o tempo parece não passar. Tudo era tão meigo, e ao mesmo tempo tão perturbador.
E enquanto o mundo lá fora parecia sorrir a cada detalhe, o mundo a 80km/h estava um verdadeiro caos. Para variar, o ônibus estava lotado. Pessoas de pé, equilibrando-se a cada curva da estrada. Nos bancos ao lado do nosso (eu + minha irmã), havia um casal com uma menininha que a princípio parecia ser meiga, calma, dócil… (tudo é perfeito a priori). Mas lá pelo meio da viagem ela resolveu ser criança. Gritava, um misto entre “mãe” e “ai” (okay, talvez fosse apenas ‘aaaaaaaaaaaahhh’ disforme), e se escondia embaixo do banco. Sabe-se lá o que passava na cabeça desse ser, mas talvez ela estivesse imaginando que debaixo do banco havia uma caverna assustadora e escura, um lugar para onde ela não queria ir, mas que o sacolejo do ônibus a impedia que não fosse. Demorou um bom tempo para que os pais da criança percebessem que talvez a criança estivesse pedindo desesperadamente que a resgatassem, e a tirassem da entrada da caverna antes que a escuridão a sugasse. Depois de um tempo, voltou a reinar a calmaria. Mas daí metade do ônibus já tinha deixado de dormir com os gritos estridentes da garota, e outra metade (eu! eu!) abandonara a leitura para poder apreciar melhor o momento. É uma experiência surreal sair do meio de uma descrição de cultos de Candomblé no Brasil, por Umberto Eco em “Viagem pela Irrealidade do Cotidiano”, para voltar ao mundo real e perceber que a viagem que se está fazendo é completamente doida (dentro e fora do livro).

[inclua aqui um espaço temporal de uma noite, uma madrugada e uma manhã, recheado de baboseiras da vida cotidiana, como jantar, dormir, acordar e almoçar…]

Já depositei meu voto (direto, secreto, universal, personalíssimo, e tudo o mais que diz no artigo 14 da Constituição Federal) no referendum. Espero que o meu candidato ganhe! 😛 (apesar de eu ser completamente contra esse referendo — aliás.. por que eu votei? Por que resolvi encarar mais de 6 horas de viagem para votar em algo inútil?) — E, como diz a Veja de daqui alguns dias (é bizarro recebê-la em casa antes das bancas)…. acabou a brincadeira. Agora vamos falar sério: o que pode ser feito para de fato reduzir a criminalidade no país?

— Daqui a pouco pego meu ônibus de volta. Torçam para que a viagem seja irreal. No livro ou no mundo à minha volta.

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Dilemas morais II

Um dos palestrantes de ontem de noite (o da visão teológica, provavelmente) propôs sem querer um problema bem interessante para aplicar a teoria dos jogos.
Digamos que você esteja com um revólver carregado (esse exemplo seria duplamente ilegal no mundo feliz da vitória do SIM, mas tudo bem) e resolva atirar contra uma porta. Aí um amigo seu, em quem você confia plenamente, vem e diz estar seguro de que há uma pessoa atrás daquela porta. Você está prestes a desistir de atirar quando outro grande amigo seu vem e diz que, na verdade, não há ninguém atrás da porta, e o que o outro viu foi apenas uma sombra. Você confia plenamente nos dois. E aí, você atira ou não atira contra a porta? 😛
Estamos então diante de 4 possibilidades de desfecho. Você pode atirar e ter alguém (-1), atirar e ser uma sombra (+1), não atirar e ser uma sombra (0) ou não atirar e ser alguém (+1).
O somatório nos mostra que é preferível não atirar (+1) do que atirar (0). Legal, não? Agora, alguém me explica o que isso tudo tem a ver com o aborto?! 😛

Dúvidas sarcásticas à parte, esse Simpósio de Bioética foi bastante interessante. Valeu a pena sair da cama no sábado de manhã tão cedo. Apesar de o debate não ter podido ser pleno — faltou, em ambas as oportunidades, alguém que fosse radicalmente a favor dos temas abordados –, teve ao menos a relevância de ser qualificado. Tanto o aborto quanto a eutanásia são questões complexas que não envolvem apenas as pessoas diretamente envolvidas (mãe e filho no primeiro, paciente terminal no segundo).
No caso do aborto, até que ponto a autonomia da mãe pode sobrepor-se à autonomia do filho? Desde que momento um ser humano é considerado humano e goza de direitos? Acabei me convencendo que o ideal é analisar o caso concreto. Eu sou radicalmente contra o aborto, jamais o realizaria. Mas não posso tirar o direito de alguém fazê-lo, principalmente nos casos de aborto sentimental (casos de estupro) ou anencefalia (aliás, nunca tinha visto uma foto de feto anencéfalo antes… é assustador… não sei como eu imaginava que fosse antes — talvez com uma cabeça normal, mas oca — mas ver um ser quase humano com uma cabeça pela metade foi uma experiência chocante).
No caso da eutanásia (e suas diversas variantes, que, no fim, são tudo a mesma coisa), também acho que vai sempre depender da análise do caso concreto. Eu não gostaria de ter minha vida abreviada. Por mais que se possa vir a sofrer com procedimentos médicos degradantes, é vida. Não se está atenuando um sofrimento, pois a pessoa não sentirá alívio — e sim morrerá. Não sentirá mais nada. Não viverá. Ponto. Mas não posso impedir que alguém que prefira a morte à vida deixe-se morrer em paz.
Enfim, ambas as questões são muito controversas. E somente um debate amplo na sociedade (papel da mídia!!) pode fazer com que as pessoas tomem suas decisões de maneira mais consciente. Só assim essas condutas extremas poderiam ser liberadas. Até lá, só proibindo e contando com o esclarecimento [supostamente parcial] do médico de cada caso (e com o amparo da lei para os casos mais extremos).

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