Monthly Archives: December 2005

Literatura brasileira

Fico impressionada com como as coisas são. Quando eu estava na escola, simplesmente odiava ter de ler aqueles livros longos e chatos, de períodos literários distantes ou obscuros. Agora que não tenho obrigação nehuma de lê-los, os livros parece que com o tempo deixaram de ser chatos, deixaram de ser distantes, deixaram de ser longos. Leio-os por pura distração num fim de semana, ou em qualquer momento, por puro divertimento. Por que as coisas são assim? Eu queria ter tido paciência de ler tudo isso na escola! — Teria sido (bem) mais útil 😛

O último livro que li foi “O Seminarista“, de Bernardo Guimarães. Apesar do tom meloso e do excessivo apelo à religiosidade, a história é bem interessante 🙂 Tem até uma daquelas cenas de egoísmo romântico, do tipo “eu não te quero, mas não quero que tu estejas com mais ninguém”!…:

“Morta de amor por ele, seria um anjo, que chamava para o céu. Viva nos braços de outro, é a serpente que o arrasta para o inferno.”

Mas não é nada que prejudique o conjunto total da obra (afinal, é Romantismo!)! 😛 O final do livro é meio triste, mas nem por isso deixa de ser tremendamente lógico e divertido (é uma das únicas saídas possíveis!) 😀

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Entediante

Existe a palavra entediante? O dicionário do Word (uau, grande autoridade!) acusa a existência apenas de tedioso como uma possível adjetivação à palavra tédio. Mas e o entediante? As duas palavras podem parecer, mas não significam a mesma coisa. A distinção é por vezes bastante sutil, mas, (ao menos para mim), entediante poderia ser dito de algo que tem por ação ou efeito provocar tédio. Tedioso, por sua vez, seria uma característica inerente a certas coisas, que faz com que elas, por si sós, representem o tédio. Assim, uma coisa tediosa não precisa necessariamente ser entediante; bem como algo entediante não necessita ser obrigatoriamente tedioso. Posso muito bem me entediar fazendo algo divertido, e, para mim, tal coisa terá sido entediante. Se, por outro lado, eu conseguir me divertir com uma coisa tediosa, quem sou eu para tachá-la de entediante? (seria esta a mesma distinção que se faz de juízo de valor e juízo de realidade? — o primeiro está na cabeça da pessoa que vê a coisa, enquanto que o outro está fora do ser que analisa o objeto: representa a opinião média acerca do assunto).

O pequeno grande dicionário Michaelis/Uol prefere simplificar as coisas, e dá para o singelo adjetivozinho tedioso uma definição que parece combinar mais com um verdadeiro entediante (mas que resume muito bem a intenção que ser quer manifestar tanto com um quanto com outro):

te.di.o.so adj. Que inspira ou causa tédio.

Por fim, para tentar provar minha teoria de que a palavra entediante existe, eis um gráfico toscamente produzido no MsPaint:

E então, este post é tedioso ou entediante? 😛

De volta ao lar (doce lar)

Eu achava que a possibilidade de seca no Rio Grande do Sul era mito. Foi preciso encarar quase 3 horas de estrada para perceber o quanto a chuva faz falta. Da vegetação, o que não estava queimado, estava amarelo. O cenário era depressente (deprimente + depressivo; faz parte do meu plano malévolo de disseminar palavras bizarras no mundo!). Deu até pena das ovelhinhas errantes à procura de um lugarzinho ainda verde para poderem se alimentar (desde que passei a escrever sobre animaizinhos, meu grau de sensibilidade para com eles só tem aumentado… parece que tomo como minhas as dores dos bichinhos; mas considere que eu talvez esteja dramatizando um pouco a situação :P).
Os lindos verdes campos do pampa gaúcho estão em perigo… Nuvens, chovam!

A viagem de hoje foi de cabelos ao vento. É mais divertido viajar de janela aberta 🙂 Isso me fez lembrar de algumas viagens atrás, no trajeto contrário (Pelotas-Bagé), quando o motorista do ônibus, antes de começar a viagem, dirigiu sua palavra aos “senhores passageiros”, desejando-lhes(nos) uma boa viagem. Ao concluir seu “discurso obrigatório”, ele ainda fez uma piadinha (quase) sem graça: “o ar condicionado de hoje é o ar condicionado de deus”, erguendo aos mãos e olhando para cima. O motorista estava se referindo àqueles tetos solares (se é que podem ser chamados assim; os tetos solares dos carros de luxo que me perdoem!) do ônibus, que no momento estavam abertos. Mas suas palavras também podiam ser traduzidas como uma verdadeira devoção a deus. Nada como um discurso ambíguo 🙂

Bom, e sigo sem saber o que exatamente postar por aqui. Se meu blog fosse uma redação de vestibular, eu provavelmente rodaria por excesso de fuga ao tema 😛

Notícias felizes

Já pensou como seria um jornal que só tivesse notícias boas? Essa é a proposta do site HappyNews.com. Lá só entra notícia feliz, o que o torna ideal para quem está cansado das tragédias do dia-a-dia 😛
Fiz um tour geral lá pelo site, e encontrei até uma notícia falando de blogs 🙂
Pena que não dá para abrir mão de ter de se informar sobre as notícias ruins :/ A idéia é bacana, mas, infelizmente, a vida é feita de coisas boas e ruins (se não fosse o mal, o que seria do bem? :P)…

Anencefalia

Que confusão essa história de transplante de órgãos de feto anencéfalo. Primeiro, liberaram. Depois houveram certas barreiras. Por fim, venceram-se os obstáculos, nasceu a criança, mas o coração do doador era muito pequeno e ficou tudo na mesma.
A questão da liberação ou não do transplante é meio controversa. Alguns alegam que isso poderia estimular a “produção em massa” de bebês anencéfalos (mais quem seria tão cruel, por exemplo, ao ponto de privar uma mulher de ácido fólico — a ausência ou deficiência de tal ácido é apontada como uma das causas da anencefalia em fetos). Outros defendem que os órgãos de um bebê sem a mínima chance de (sobre)viver (por conta da falta de cérebro) poderiam ser usados para salvar uma outra vida, (bem) mais viável.
E tem também a questão de autorizar ou não o aborto nesses casos…
O que parece mais justo seria deixar a própria mãe decidir se leva ou não a gravidez de anencéfalo até o final (por questões psicológicas, se não houver riscos, é preferível que se leve até o fim — pois é melhor ter tido um filho, que morreu, do que nunca ter tido um filho, e talvez viver com o sentimento de que o tenha matado). E, então, tendo optado por levar até o fim a gravidez, a própria família do bebê deveria poder optar se doa os órgãos ou não. É o que parece ter sido o ocorrido na família do suposto doador no caso recente (pena que não deu certo). Mas o transplante segue autorizado. Assim que nascer um bebê com coração compatível, o pequeno Arthur poderá ainda ser salvo 🙂

[E por que será que eu (ainda) me importo com isso? Vai saber… Meu blog tá ficando cada vez mais chato mesmo… :P]

O homem que confundiu sua mulher com um chapéu

O homem que confundiu sua mulher com um chapéu Em “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu“, o neurologista anglo-americano Oliver Sacks transforma relatos clínicos de seus pacientes em verdadeiros ensaios literários. Com sua narrativa, o médico-autor consegue ir muito além do mero registro científico de distúrbios cerebrais, o que transforma sua obra num verdadeiro tratado sobre a convivência humana. Os personagens ali retratados são representados como figuras verdadeiramente humanas, que, apesar de seus problemas neurológicos, ainda encontram uma maneira de viver (nem que seja uma vida “humeana“, aquela em que viver é acumular sensações).
É o caso dos irmãos gêmeos que desenvolveram um espetacular raciocínio numérico, e se divertiam pensando em números primos de várias dezenas. No entanto, com desenvolvimento mental retardado, eram incapazes de efetuar as mais simples operações matemáticas. Situação semelhante é a vivida pelo simpático dr. P, cujo caso serve de título à obra. Músico respeitadíssimo, ele era incapaz de reconhecer rostos humanos. Embora sua visão fosse normal, ele sofria de agnosia visual: o que lhe faltavam era a capacidade de associar o que via ao que aquilo significava. Ele não percebia os objetos pelo que são, mas por suas características. Ao invés de raciocinar por analogia, como fazem as pessoas “normais”, seu cérebro operava por deduções. E, preso a um mundo abstrato de características aparentemente dissociadas a suas significações, ele confundia não só a cabeça de sua mulher com seu chapéu, como também o próprio pé com o sapato. Outros casos interessantes são o da mulher que perdeu a propriocepção (espécie de sexto sentido, aquele que é formado pela associação das sensações que nos permitem manter o equilíbrio); o do cara que perdeu sua memória até uma certa data, e para ele, desde então, literalmente, todo dia era um novo dia; o do rapaz que perdeu o olfato, e com o tempo passou a viver da memória que tinha dos cheiros; além de alguns casos de pessoas que sentem dores em membros amputados (“fantasmas”).

Os relatos do livro introduzem personagens aparentemente fantásticos, mas que, por mais inusitado que possa parecer, são representantes da vida real, possuem problemas reais, que exigem soluções reais, e estão ali para nos fazer aprender um pouco mais sobre a necessária convivência humana. Cada ser humano é diferente do outro, e todos têm seu potencial a desenvolver. Ninguém é perfeito. Certas pessoas nunca poderão fazer certas coisas, mas não custa nada tentar melhorar… E é essa a mensagem que o livro tenta nos passar. Há casos difíceis, mas nada é tão impossível que não se possa encontrar uma saída.

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Word of the Year

Podcast” foi eleita a “palavra do ano” do Oxford Dictionary e constará na edição online do mesmo a partir de 2006. A definição será algo como “a digital recording of a radio broadcast or similar program, made available on the internet for downloading to a personal audio player.” (“gravação digital de uma transmissão de rádio ou programa similar, disponibilizada na Internet para download em um player de áudio”, conforme a tradução do Informe Econômico, da Zero Hora de 09/12/05)